“Missa Sertaneja” - Comunidade de Todos os Santos - Paróquia de Santo Antônio de SINOP - 7 de agosto de 2022

I. Para os mais afoitos e/ou ingênuos lembro que a expressão “missa sertaneja” é equívoca. A missa é a oração da Igreja por excelência, porque nela, Cristo reza conosco; nela, Cristo se une a nós em um maravilhoso encontro de irmãos na força do Espírito Santo, para celebrarmos o dom da nossa vida. O “adjetivo” sertaneja adicionado à missa não diminui nem empalidece a substância do Mistério da fé. A Missa é o memorial do Mistério pascal de Cristo. Na última ceia, Jesus nos deixou o memorial da sua páscoa: “Façam isto em memória de mim” (cf. 1Cor 11,24). 

Diz-nos o Papa Francisco que “cada celebração da Eucaristia é um raio daquele sol sem ocaso que é Jesus Cristo ressuscitado. Participar da Missa, em particular aos domingos, significa saborear a vitória do Ressuscitado, ser iluminados pela sua luz e aquecidos pelo seu calor”. Portanto, a participação na Eucaristia nos faz entrar no mistério pascal de Cristo, permitindo-nos passar com Ele da morte à vida, da escravidão à liberdade. Participar da Missa ‘em espirito e verdade’ implica em refazer a dramática experiência do calvário: “Tendo amado os seus, amou-os até o fim” (cf. Jo 13,1). Missa não é espetáculo, é encontro com Cristo. É memória subversiva Daquele que em tudo soube fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34). Por isso, jamais a Igreja, a esposa de Cristo, deve ser transformada em circo para espetáculos bizarros, usando e abusando do santo de Deus. 
 
O diferencial da badalada e - em alguns ambientes controversa -  “missa sertaneja”, são os arranjos musicais dos cânticos – quase sempre, em forma de paródias - cadenciados pelo ritmo sertanejo. Talvez seria mais “católico” e razoável usar sertaneja entre aspas, ou seja, Missa “sertaneja” e não missa sertaneja sem mais. Contudo, as canções “adaptadas” no contexto de uma celebração litúrgica nos reportam naturalmente às nossas origens, à vida simples e idílica do interior, à nossa infância; em suma, mexe com nossas biografias. Quem de nós, aqui, quando criança, não acordou bem cedinho de manhã, ouvindo rádio tocando músicas caipiras. Algumas canções eram tão tocantes e reavivavam experiências e/ou situações tão dramáticas e tristes da família e/ou familiares que faziam verter lágrimas em profusão. “A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição” (Aristóteles). 

As novas gerações não têm ideia e sequer conseguem imaginar a dureza e os tremendos lutas que os nossos antepassados enfrentaram e superaram. Escrevi essas linhas e as partilho com vocês, em grande medida, baseando-me na própria história pessoal. Hoje, havemos de convir, há muita comodidade, conforto e facilidades em todos os sentidos, graças a Deus e à evolução da cultura. Os nossos ancestrais pelejavam dia e noite na lavoura para garantir a sobrevivência e a subsistência da família, sem direito a férias e/ou a qualquer tipo de prazer. Contudo, conseguiam, apesar de todas as agruras e diabruras que padeciam, manter-se firmes na fé e transmiti-la aos filhos/as com galhardia e bravura.       

II. Por isso, ao atender as demandas apresentada por lideranças entusiastas desta comunidade de Todos os Santos da Paróquia Santo Antônio de Sinop, queremos colocar em oração todos os homens e mulheres que, incansavelmente, mesmo em tempos tão difíceis, trabalham a terra para produzir e levar alimentos à mesa de todos nós. Nossa intenção é trazer para a missa elementos vivos que avivam a memória de quem trabalha a terra ou que já trabalhou em atividades relativas ao universo rural. Indubitavelmente, grande porcentagem dos membros das nossas comunidades cristãs, especialmente, os mais provados pela idade, tem suas raízes fincadas na terra do interior. 

O filósofo francês, Blaise Pacal, foi feliz e certeiro quando afirmou que “é o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração” (C\'est le cœur qui sent Dieu, et non la raison. Voilà ce que c\'est que la foi parfaite: Dieu sensible au cœur). O renomado teólogo brasileiro, Leonardo Boff, fez eco a essa intuição fenomenal de Pascal: “Crer não é pensar Deus. Crer é sentir Deus a partir do coração... É pela sensibilidade que sentimos o pulsar do coração do outro. Por ela intuímos que também as montanhas, as florestas, os animais, o céu estrelado e o próprio Deus têm um coração pulsante”. É tarefa da religião trabalhar a terra do coração dos fiéis para que ele tenha compaixão, saiba sair das próprias bolhas e saiba se colocar no lugar do outro para com ele sofrer e carregar a cruz da vida, como também, juntos, celebrarem a alegria e fazerem festa. No coração de Jesus não havia espaço para as sombras do ódio, dos preconceitos, do ressentimento e do espírito de vingança; no coração manso e humilde de Jesus brilhava a luz da bem-querença, da ternura e do amor. Assim deve ser também o nosso coração. 

III. No evangelho que ouvimos, Jesus afirma: “Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor encontrar acordados...”. Orai e vigiai porque “o sono da razão produz monstros” (Goya), e o sono da alma gera a morte. O patrão que cinge as vestes representa o serviço que a vida exige de quem vive progride na espiritualidade: a felicidade, as bem-aventuranças, a alegria espiritual e o prazer de descobrir a filiação divina. Paradoxalmente, todos aqueles que dormem pensam estar acordados. Quem dorme não sabe e, às vezes, acordar é duro e doloroso. 

Jesus é firme e cortante: acorde, abra os olhos, tome consciência de quem és, donde estás, da realidade que estás imerso. Muitas se distraem e vivem em função dos seus brinquedos (dinheiro, carros, roupas, fama, festas, consumismo, viagens infindas, etc.). Por viverem quais sonâmbulos não querem ser curadas, buscam apenas paliativos. A cura seria muito dolorosa, seria demasiado exigente, seria muito dispendiosa. Daí a tentação do contentar-se com pílulas de farinha, com religiões esotéricas e narcotizantes e/ou buscar respostas pré-fabricadas para as agruras da vida.

Pedro se sentiu incomodado com as palavras do Jesus: “Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?”. As palavras de Jesus são dirigidas a todos. Todos nós somos administradores, porque o tempo não é nosso, foi-nos concedido para administrar. Os filhos não são nossos: foi-nos confiado. A minha vida não é minha: foi-me concedida para que eu a administre, mas um dia será reclamada. Os bens da criação não são minha propriedade. Também o meu corpo me foi dado para que eu o administre com cuidado. O coração, os rins, os pulmões, os músculos, as mãos, as pernas, o sexo, etc. são nossos servos. Como estou cuidando deles?  

Às vezes, acordamos apenas quando a máquina apresenta defeito e necessita de peças de reposição. Mesmo assim muitos não aprendem a respeitá-lo. Importa que o mesmo se regenere e volte a produzir e satisfaça as necessidades. É importante que aprendamos a cultivar a atitude de veneração pelo nosso corpo e sejamos administradores sábios, fiéis e atentos a todas as suas dimensões. 

Jesus é categórico: “A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá”. Na boca de Jesus estas palavras representam uma explicita advertência aos homens da religião, aos juristas, às autoridades e aos líderes das comunidades: eles sabem e tem acesso ao conhecimento. Suas omissões são indesculpáveis. Podem ser palavras muito duras para aqueles que sabem, para quem tem consciência de como vão as coisas e por algum motivo inconfessado não intervém, não agem, não objetam, calam-se, silenciam, evitam os conflitos por omissão e/ou covardia. Quem sabe tem mais responsabilidade. Aquilo que temos (dons, dinheiro, habilidades, conhecimentos, capacidade de escuta, sensibilidade, etc.) deve ser colocado com boa consciência a serviço dos irmãos; no juízo final não seremos julgados pelo patrimônio que construímos nem pela herança que deixamos à posteridade, mas por aquilo que nos foi confiado. Como administramos? Isso não tem preço!

IV. Por fim, queridos irmãos e irmãs, quero implorar, em nome de toda a comunidade aqui reunida em oração, nesta manhã memorável, a Nossa Senhora Aparecida que se digne acompanhar e abençoar todas as famílias que vivem e pelejam com a Mãe terra para garantir “o pão nosso de cada dia” e a todos nós. Que estejamos sempre acordados e atentos à indicação que ela apresenta aos servos e a nós, no contexto da festa de Caná: “Fazei tudo o que vos disser” (cf. Jo 2,5). Tudo para a maior glória de Deus.  

 
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