Aprendemos que a vida é dinâmica e que “nada existe de permanente a não ser a mudança” (Heráclito).
Por isso, começar, recomeçar e idealizar mudanças é dar uma nova chance a nós mesmos…, mas isto pressupõe uma mente arejada e arrojada; o contrário da fé não é o ateísmo, mas o medo.
O medo do novo e o pavor de abandonar supostas zonas de conforto atravanca tudo e depõe contra a vida segundo o Espírito.
Às vezes, temos a sensação de entrar em parafuso e fechamos as portas até para os anjos que Deus envia para nos acordar do sono.
“Orai e vigiai”, alertava Jesus. Ele sabia que corremos o risco de tornarmo-nos fósseis empalhados que não se emociona com mais nada; sisudos e sempre preocupados com as coisas deste mundo, quando não neuróticos; quase sempre impermeáveis aos suspiros da alma e do Espírito que quer “fazer novas todas as coisas” (cf. Ap 21,5).
Importa abdicar das máscaras que usamos por conveniência e encontrar prazer e alegria nas coisas simples da vida. A rotina e a monotonia escravizam e revelam o pior de nós.
Efetivamente, 2022 está despontando e 2021 vai declinando como o sol no momento mágico do crepúsculo.
Sabemos que o tempo de Deus não o tempo do relógio, contudo, entendemos ser bom e salutar, neste contexto do ano lançar um olhar reverencial e contemplativo sobre todas experiências vividas: sejam elas alegrias ou tristezas, sejam elas frustrações ou estupendas realizações, sejam elas tangíveis e simples ou perturbadoras. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” escreveu F. Pessoa.
É exercício igualmente interessante e oportuno termos a liberdade de levantar questões importantes para a nossa vida no ano vindouro.
Sem cair na armadilha e/ou na ilusão de fazer propósitos mirabolantes e não os cumprir; cabe, sim, projetar alguns sonhos para que eu, minha família e a comunidade da qual participo possam crescer, prosperar e construir a cultura da comunhão, fazendo o Reino acontecer.
Constitutivamente somos pessoas imperfeitas, mas perfectíveis, ou seja, somos seres que podem se aperfeiçoar e evoluir de modo imparável. Daí a importância de encetarmos esforços para nos tornarmos, com a graça de Deus, pessoas melhores, mais razoáveis e mais fraternas. Converter-se é preciso.
Que preciso fazer para me tornar uma pessoa mais credível, mais equilibrada e mais ética?
Que posso fazer concretamente para aperfeiçoar minha caminhada de fé no interior da comunidade e para ter um coração mais parecido com o de Jesus?
Que devo fazer para que Deus continue modelando o meu caráter, aparando as minhas arestas e me purificando de todas as afeições desordenadas?
Estamos, graças a Deus, superando o tenebroso flagelo da pandemia que vitimou tantas pessoas caras como também tantos negacionistas criminosos, e neste contexto muitas pessoas se perderam no isolamento e no inferno da solidão voluntária ou forçada. É hora de sair do casulo.
Será que aprendemos alguma lição importante com as restrições e com o sofrimento imposto pela pandemia? Ou tudo continuará “como dantes no quartel de Abrantes”?
Efetivamente, há muita gente ferida, sendo humilhada pelo desemprego, pela fome, pela doença, às vezes, vítimas da própria ignorância, esperando um abraço fraterno, um sorriso franco, um gesto de solidariedade. Que posso fazer para aliviar o peso da cruz de tantos irmãos e irmãs?
Às vezes, sentimos vergonha das nossas próprias contradições e nos trancamos na caverna da melancolia porque não nos suportamos; tornando-nos pessoas desfiguradas e horríveis por nossa própria culpa.
Por isso, acalentar novos sonhos, conhecer-se e vencer-se a si mesmo, e recomeçar deve ser uma meta a ser perseguida por todos nós, e fazê-lo com alegria.
O “hoje” é o adverbio preferido de Deus e é sempre um bom dia para acendermos as brasas da esperança e dispormo-nos a enfrentar novos desafios porque a vida é grávida de oportunidades.
Porém, estou disposto/a enfrentá-los?
Tenho motivação para fazê-lo ou estou enterrado no pessimismo e no imobilismo?
De nada adianta pretender dar saltos qualitativos na vida se não se sabe onde se quer chegar. Parafraseando Içami Tibas, podemos afirmar que a nossa vida se assemelha aos navios... A maior segurança para os navios pode estar no porto seguro, mas eles foram projetados para singrar os mares bravios, e não para ficarem atracados no porto.
Agere sequitur esse, (“o agir segue o ser”) diziam os antigos. Se desejarmos fortemente o melhor para nós e para os outros, o melhor vai se instalar na nossa vida.
Portanto, escolhemos o hoje para mudarmos e fazermos uma oxigenação da alma; postergá-lo para amanhã pode ser que nunca aconteça.
Não tenhamos medo de jogar fora tudo o que engessa o presente e nos mantém prisioneiros do passado, naquele saudosismo doentio.
“O que a gente acumula é parte da gente porque somente o amado é acumulado” (Rubem Alves). Porém, às vezes, o mundinho dos fatos tristes retratado nas fotos antigas, nas peças de roupa estragadas, nas lembranças mórbidas e nas tantas tranqueiras que vamos acumulando na vida só servem para esconder nossas carências, nossos fantasmas e nossos apegos desordenados.
Advento é tempo de “preparar o caminho do Senhor”, portanto é tempo de nos esvaziarmos de todo orgulho, vaidade e presunção para darmos espaço Aquele que vem habitar entre nós – no nosso coração! – e para dissipar todas as trevas.
O Amor vem vindo e ele deseja encontrar abrigo, aconchego e um ambiente livre, caloroso e festivo nas nossas casas e na nossa vida.
A nossa casa/coração está preparada para acolher o ilustre hóspede?
Temos tempo para ele?
Natal é a festa do Amor, a festa da Luz, a festa da Família de Deus, a festa do Emanuel.
“Porque eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura” (F. Pessoa).
Por tudo, o que pudemos experimental, celebrar, viver e aprender em 2021, graças e louvores sejam dados ao Senhor; por tudo o que virá em 2022, seja feita a vontade de Deus.
Que Deus nos dê a graça de uma maravilhosa celebração do Natal do Senhor em família e com a família, e um 2022 bom e abençoado, na doce companhia da Mãe, Maria, de São José e de nosso amado padroeiro, Santo Antônio!