A celebração da Quarta-feira de Cinzas

Por Pe. Roberto J. Gottardo,SJ


Com a Quarta-feira de Cinzas a Igreja inicia o tempo litúrgico da Quaresma. Tempo litúrgico que nos remete aos 40 dias que Nosso Senhor esteve no deserto para ser tentado por Satanás (cf. Mc 1,12). Segundo o prisma bíblico o deserto se apresenta como um lugar extraordinário e implacável porque faz emergir quem sou eu sem fantasias e sem maquiagens. Por isso, muitos o evita porque é ameaçador. Por que será que o silêncio perturba tanto a tantos? O deserto sempre será lugar de confronto com as vozes demoníacas que nos povoam.

 

No deserto, Jesus teve que lidar com o aspecto animalesco, terrível e demoníaco que o oprimia. Efetivamente, nenhuma caminhada cristã séria (as tentações, em todos os Evangelhos, precedem a vida pública de Jesus) evangélica e humana, pode ser realizada sem este pungente e inevitável confronto. Neste sentido, a Quaresma se apresenta como oportunidade imperdível para afrontar a hipocrisia, a tentação da vingança, a cultura do ódio como também livrar-se das práticas religiosas idolátricas que afastam do Deus de Jesus, das nossas rebeldias e alienações.

 

Jesus, ao confrontar-se e vencer o Tentador se agiganta para dar início à vida pastoral. Ele vai para a Galileia para pregar o reino de Deus e anunciar: “Cumpriu-se o tempo e está chegando o Reino de Deus; convertei-vos e crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15). Jesus toma consciência do enorme poder que tem tanto para fazer o bem como para identificar e destruir o mal. Ele age pela força do Espírito e usa suas potencialidades para fazer germinar o Reino. Quando um homem reconhece os abismos de suas misérias e as enfrenta toma consciência do poder que ele tem dentro de si.

 

O rito da imposição das Cinzas sobre as nossas cabeças enseja lembrar de uma verdade fundamental: “Lembra-te que és pó, e ao pó retornarás” (cf. Gn 3,19).  Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos, enquanto igreja, o caminho bíblico, pastoral, litúrgico e existencial de conversão, acompanhando Jesus no enfrentamento das agruras e diabruras do deserto para redescobrirmos a essencialidade da vida, para fazermos a esplêndida experiência de intimidade com o Senhor que se faz solidário com as nossas misérias. Por isso, a Quaresma é um tempo oportuno para valorizarmos a interioridade e reconhecer o valor da piedade, da oração, do jejum e da prática da solidariedade, tempo de revisarmos a qualidade da nossa relação com Deus.

 

Neste sentido, a Campanha da Fraternidade/2023 é uma seta certa que a Igreja do Brasil aponta para vivenciarmos a Quaresma de modo mais encarnado e efetivo, produzindo frutos de justiça e proximidade com os famintos de Pão e da Palavra. O Papa Francisco, ao meditar sobre o evangelho do dia (cf. Mt 6,1-6.16-18), foi incisivo ao afirmar que a Quaresma é um tempo favorável “para depor as máscaras que usamos todos os dias para, quiçá, esconder as nossas imperfeições aos olhos do mundo; um tempo para lutarmos com tenacidade contra as falsidades e as hipocrisias pessoais, e não as dos outros”. Devemos redobrar os cuidados para que a religião que professamos não seja apenas um teatrinho, um entretenimento a mais no panteão dos ídolos.  Jesus não teoriza, mas nos desafia: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (cf. Mc 6,37).  

 

O rito da imposição da Cinzas nos impelem a reconhecer com humildade que somos cinzas; ajuda-nos também a reconhecer que o mal se abriga habita também em mim e não apenas nos outros. Lembra-nos que daqui a cem anos (para ser otimista!) nem vestígios de nossos pobres corpos restarão: poderosos, ricaços, arrogantes, campeões, celebridades, ídolos, corpos perfeitos, etc. tudo se transformará em pó. Contudo, esta obviedade amarga e difícil de ser digerida não pretende deprimir ninguém nem inocular o vírus do pessimismo, mas objetiva animá-los a viver uma vida com mais autenticidade, com mais intensidade e mais verdade, para aprendemos a distinguir o que nos edifica e o que nos destrói, o que precisamos de fato e o que é absolutamente supérfluo para uma vida sensata, razoável e feliz.

 

As cinzas na fronte intencionam ainda lembrar que somos criaturas frágeis, finitas e mortais. E isto não deve entristecer ninguém porque Deus não se envergonha da nossa fragilidade, Ele nos ama como somos. Precisamente por Ele nos amar de modo incondicional deseja que sejamos filhos/as do dia, e não da noite (cf. 1Tes 5,5). É por isso que Ele nos exorta a voltarmos para Ele “rasgando o nosso coração e não as vestes” (cf. Joel 2,13), ou seja, não nos perdermos com as exterioridades e com as futilidades da vida. Retornar a Deus significa rejeitar os ídolos sedutores que, apesar de uma suposta vida de fé, nos afastam de Deus, levam a esquecer o Evangelho e andar na contramão da vontade de Deus. Aquele que ousa retornar para se reconciliar encontrará um Pai que o abraçará com imensa ternura e com amor infinito.

 

Indubitavelmente, a imposição das Cinzas é um gesto simbólico e incômodo para muita gente, uma indigesta lembrança da verdade realmente real da vida e dos fatos. Somos apenas pó, somos apenas cinzas e todos os nossos esforços, os nossos acertos, as nossas conquistas, o nosso patrimônio ficará para os outros, e ainda devemos rezar para que o espólio que permanece não seja motivo de disputas insanas e fratricidas. Diante disso o autor sagrado afirma: Vanitas vanitatum omnia et vanitas (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, cf. Ecle 1,2). É tempo de despertar! É tempo de preparação para a Páscoa do Senhor.  

 

A Quaresma é um tempo abençoado e fecundo para cuidarmos do essencial, ou seja, daquilo que constitui a seiva vital das nossas vidas: a interioridade, a espiritualidade, a paz interior, a partilha do pão e a prática amorosa da solidariedade e do perdão. É tempo de compreender que o amor, como Jesus afirma no Evangelho de hoje, não se confunde às nauseantes tagarelices, mas deve se traduzir em gestos concretos para com o próximo, especialmente para com os mais pobres e necessitados. Que Deus nos dê a graça de fazermos uma excelente caminhada de conversão!

 
Indique a um amigo
 
 
Mais artigos
Copyright © Paróquia Santo Antônio. Todos os direitos reservados