“O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos... É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina” (Rubem Alves).
Todo o pensamento bíblico está alicerçado no imperativo: “Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus, é o único Senhor” (cf. Dt 6,4). A escuta da Palavra de Deus frutifica em nós e ilumina a nossa vida quando acolhida com amor. Ela também nos torna família de Deus e concidadãos dos santos, como diria São Paulo (cf. Ef 2,19).
Este curtíssimo evangelho de Lucas (cf. 8,19-21) tem sido bastante silenciado pelos pregadores de todos os tempos, talvez porque seja realmente desestabilizador levá-lo a sério. Faz emergir uma novidade revolucionária em relação à mentalidade religiosa da época: a prevalência da experiência da fé sobre a intocável predominância do clã familiar: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática”.
Jesus, por outro lado, ousou subverter esse automatismo chancelado pelos religiosos e profundamente entranhado na cultura da época: o discipulado cria laços mais intensos e duradouros do que qualquer outra experiência familiar. Jesus considera irmãos e irmãs não seus parentes de Nazaré, mas aqueles que ouvem e praticam sua palavra. “Tornamo-nos cristãos, não nascemos”.
Realmente, trata-se de algo extraordinário. A família do Reino se constitui a partir da escuta e da vivência da Palavra de Deus e não da pertença à família histórica de Jesus. Mesmo que tenhamos tido uma triste experiência familiar podemos ter uma maravilhosa experiência de comunidade, criando relacionamentos e vínculos baseados na rocha que é a Palavra do Mestre de Nazaré. Na Igreja podemos tecer laços autênticos e significativos, iguais e superiores aos de sangue.
A experiência o demonstra que reconhecer o senhorio de Jesus e tornar-se seus discípulos une pessoas com opções de vida, cultura e experiências radicalmente diferentes. Podemos, por exemplo, falar com cristãos chineses e/ou africanos cuja vida é plasmada pelos mesmos princípios porque a fé nos irmana. Tornamo-nos parte de uma grande família, a Igreja, que reúne aqueles que decidiram seguir a Cristo vivendo o Evangelho com radicalidade e compaixão.
Esta experiência vai muitas vezes para além da pertença familiar. Segundo o pensamento de Jesus os laços de fé são muito vezes mais profundos e autênticos do que os de sangue. É fato que muitos cristãos têm mais intimidade/amizade com pessoas da comunidade cristã que com os próprios familiares! Na perspectiva de Jesus a escuta da Palavra subverte os pilares da religião e do próprio sentido da família.
À medida que ouvimos e interiorizamos a Palavra de Deus e a vivemos com amor, com alegria e criatividade nos tornamos irmãos/ãs de Jesus, membros da família messiânica. Por isso, a mensagem do evangelho de hoje é esplêndida: um novo sentido religioso de pertença nos é proposto com laços mais fortes que os de sangue, é o milagre da fé.
Entretanto, para fazer parte desta família é preciso tomar uma decisão: ouvir o Evangelho com amor, guardá-lo no coração e traduzi-lo em vida, precisamente como o fez Maria, a primeira discípula do Filho; ela foi a primeira a “acreditar no cumprimento das palavras do anjo”.
A Bíblia contém a Palavra de Deus, que é sempre atual e eficaz. Como seria a nossa vida se usássemos a Bíblia como o mesmo interesse e “fervor” que usamos o celular?” Se a levássemos sempre conosco; se voltássemos quando a esquecemos, se a abríssemos várias vezes por dia; se lêssemos as mensagens de Deus como lemos as mensagens em nosso celular. A analogia pode parecer absurda, mas dá o que pensar.