Acróstico de ADVENTO

Na atualidade, são tantos os modismos e as novidades que excitam os nossos sentidos que, às vezes, nos sentimos perdidos e confusos. Estamos sendo engolidos pela cultura da obsolescência, ou seja, tudo se torna descartável, usa-se e abusa-se não só dos produtos, mas também das pessoas (mercadoria), e se joga fora. 

O risco é que esta mentalidade rasteira e materialista suprima os valores, a riqueza do patrimônio religioso e cultural de um povo que têm raízes e tradições antigas não susceptíveis aos ventos do famigerado “tempo de validade”. Como é importante a orientação do Senhor no evangelho: vigiai! No afã de viver e fruir apenas do “agora”, a dimensão do mistério, da espiritualidade e dos valores que não passam podem sofrer avarias e até golpes mortais. 

A propósito, somos capazes de colher e compreender a profundidade das palavras que usamos? Que significa, por exemplo, a palavra Advento? Não é ela um termo estrangeiro e esvaziado? No entanto é a primeira expressão que encontramos no início do ano litúrgico. No calendário o “advento” aparece com certa solenidade porque anuncia a festa/magia do Natal que se aproxima. Porém, o retumbante apelo comercial e consumista, às vezes, muda o focus e pouco nos questionam sobre o “como” devemos nos preparar para acolher o Deus que vem vindo.

O Pe. Michele Cerutti nos ajuda a meditar sobre o significado de Advento explicitando-o com um interessante acróstico. Intenciona possibilitar uma compreensão mais apurada o encontro do Cronos (tempo do relógio) com o Kairós (tempo de Deus), neste início do ano litúrgico. Fá-lo-ei com alegria através de uma tradução livre de alguns tópicos com as necessárias adaptações. 

A do anúncio que remonta a tradição profética que nos acompanha neste período do Advento e nos convidam a nos prepararmos para a chegada do Messias. O anúncio do Batista no deserto com o seu convite à conversão e à superação dos obstáculos que colocamos ao Senhor para que Ele não “engravide” a nossa vida. O anúncio do anjo Gabriel a Maria constitui o dado fundamental deste tempo, porque só com o consentimento da Virgem o mistério da encarnação de Deus foi pavimentado. É o anúncio que devemos fazer através de nossas vidas para espalhar a alegria de um Deus que se fez carne e deseja armar a tenda entre nós (cf. Jo 1,14). 

D de disposição. “Se quiser conhecer uma pessoa não observe o que ela faz, mas o que ela ama” (Santo Agostinho). Às vezes, o que mais nos falta é a disposição para superar o medo do comprometimento com a dinâmica do Reino. Que dizer dos fantasmas e dos monstros interiores!?  É preciso disposição e liberdade interior para que nossa vida esteja sempre em comunhão com ele e uns com os outros. Somos mais propensos a levantar muros que construir pontes. Dispor-se à sincera conversão faz-se imperativo. Junto à disposição de seguir as pegadas do Espírito deve-se igualmente cultivar a atitude da vigilância para que a chegada do Senhor não nos surpreenda como um ladrão. O Advento é tempo de despertar da letargia e sermos mais ativos na caridade. 

V de vigilância. O Advento do Senhor é tempo de vigilância, de aguçada sensibilidade social e de um coração mais compassivo em relação à dor e ao sofrimento do outro. A mulher grávida é o símbolo por excelência desse tempo tão fecundo e abençoado. Precisamos redobrar os cuidados para que a mãe da criança não sofra sobressaltos nem o bebê seja abortado por causa da cegueira, da maldade, da hipocrisia, da duplicidade psicológica e da arrogância dos Herodes de plantão. Advento é um tempo propício também para se contemplar o Presépio, o Deus que se encarna na história para assumir o lugar dos últimos. Faz-se necessário cuidar-se do consumismo desenfreado e materialista. O ídolo dinheiro está levando muita gente à ruína. Por isso, “orai e vigiai sem cessar”, adverte o Senhor. 

E de evento. O evento Jesus é o centro da história e também o focus do advento. O coração foi escolhido pelo próprio Deus para ser a manjedoura do evento de Natal. Todas as atrações natalinas que não ajudam a concentrar a nossa atenção no objetivo central da festa, nos afastam. Pior: corremos o risco de reduzir a celebração do Natal numa bela farsa com verniz religioso. O evento Jesus, portanto, é para nos desvencilharmos das aparências e procurarmos contemplar o Deus que se faz menino. Um conhecido teólogo escreveu: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino”.

N de Natal. “A própria Vida se manifestou na carne, para que, nessa manifestação, aquilo que só podia ser visto com o coração fosse também visto com os olhos – e dessa forma curasse os corações” (Santo Agostinho). Natal é Deus que assume um corpo humano para nos divinizar e santificar. É o divino que se humaniza e que se faz visível e palpável. É o eterno que se revela no tempo e se torna compreensível. Contudo, é preciso escutar o evangelho: “Ficai atentos!” (cf. Mt 24,42). Os ídolos fabricados pelo deus mercado descarta o Presépio e oferece-nos o rechonchudo Papai Natal, até os enfeites de mesa típicos desta época são paganizados. É muito triste constatar a manipulação dos símbolos religiosos para fins comerciais! Não desanimemos! Adotemos, pois, o presépio como símbolo-síntese das maravilhas que Deus quer realizar em nós. 

T indica o tempo que se apresenta diante de nós para nos prepararmos dignamente para a grande alegria própria do Natal do Senhor. As primeiras comunidades cristãs perceberam que o tempo de preparação era necessário para se preparar bem para o grande dia. Afinal, festa que se presa não se se improvisa. Assim podemos e devemos aproveitar o tempo para nos aproximarmos da Palavra, do Sacramento da Reconciliação, da Eucaristia, participar da Novena de Natal, da recitação do Rosário em família, promover alguma promoção que diminua as agruras das famílias que passam por tribulações, etc. É tempo de mexer-se. É tempo de acordar.

O de oração. A oração era o oxigênio da vida de Jesus. Exercitar-se na oração pessoal. Talvez o maior risco do ser humano seja o de viver sem a dimensão do mistério e como se Deus não existisse, como vivia o povo no tempo de Noé (cf. Mt 24,37-39). Todos foram tragados pela fúria do dilúvio que se abateu sobre eles! A oração deve iluminar a nossa vida, modelar o nosso caráter e inspirar as nossas ações. É através da oração que descobrimos a vontade de Deus. É à luz da oração que captamos o extraordinário no ordinário da vida. As experiências fortes são importantes porque nos ajudam a viver a “normalidade” do cotidiano com aquele entusiasmo que só a fé pode nos oferecer.  

Importa, por fim, dispormo-nos a contemplar o Presépio e apreender dele toda a riqueza simbólica e catequética que encerra, em sua suprema simplicidade. “Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: ‘Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos’” (cf. Lc 10,21). Para refletir: Que adianta adornar a casa com tantos enfeites e adereços se o Advento/Natal não acontece na nossa interioridade!?  

 
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