Ele viu os discípulos cansados de remar

O evangelista Marcos (cf. 6,48) com incrível e inspirada maestria escreve que após o milagre da multiplicação dos pães Jesus intima os discípulos a embarcarem na barca para efetuarem a travessia do mar até a outra margem, Betsaida, enquanto Ele se despedia da multidão e se retirasse para orar (cf. Mc 6,45-46). E o que aconteceu?  
 
A experiência dos discípulos foi dura e de certa forma dramática. Não obstante o cansaço que os atordoavam foram açoitados por ondas terríveis. O mar se encrespou e por pouco não afundaram. O fim iminente parecia inexorável. Isto retrata a viva realidade humana, a vida da Igreja (barca) quando ainda embrionária. Não há quem não experimente medo e insegurança em situações análogas. Contudo, Jesus “viu os discípulos cansados de remar” (cf. Mc 6,48), ou seja, cansados de viver, de pelejar e de combater o bom combate do evangelho. É deveras oportuno ater-se sobre o verbo “ver” conjugado de modo original por Jesus. 

Diante do povo que vivia como ovelhas sem pastor e muitas vezes oprimido e humilhado em nome de Deus pelas inescrupulosas lideranças religiosas, Jesus com coração cheio de compaixão e de docilidade, convida: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas" (Mt 11,28-29). Jesus se solidariza e se comove diante dos medos que aterrorizam a alma e das inúmeras mazelas que afetam os filhos/as de Deus.  

O Pe. A. Palaoro,SJ, observa que “Jesus é Aquele que vê e também Aquele que faz ver”. O olhar do mestre de Nazaré não se detinha nas aparências, mas contemplava o rosto das pessoas. Era o olhar limpo, diáfano, gratuito e desinteressado que destravava e expandia a consciência e a vida do outro numa nova direção. “Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença sem preconceitos e sem aprioris conceituais vendo nele a ternura de Deus. Passar da contemplação à acolhida: este é o movimento da oração que passa pelos olhos”.

Somos herdeiros da cultura do olhar racionalista e cientificista que tudo examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa, mas não consegue atentar para o essencial. Por isso, o olhar se torna opaco, enviesado, insensível, frio, duro, ríspido. Neste sentido, o evangelho é categórico: “os discípulos não tinham compreendido nada a respeito dos pães. O coração deles estava endurecido” (cf. Mc 6,52). Aí reside a raiz do problema. No extraordinário livro “Cegueira moral” Z. Baumann descreve as nefastas consequências desse olhar refratário e demasiadamente humano e “racional”.    

Rubem Alves escreveu numa memorável crônica: “Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. ‘Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios’ (Alberto Caeiro). O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver”. O olhar de Jesus era diferente porque não estava contaminado pela ideologia do establishment oficial nem pelos dogmas da religião, nele reluzia o esplendor da pureza de Deus.  

Talvez todo o nosso esforço, enquanto cristãos, deveria consistir em envidar tempo e dedicação no sentido de curarmos o nosso modo pecaminoso de olhar a realidade: “O olhar supérfluo e imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro” está asfixiando a alma. Segundo Palaoro, “nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida e a presença do outro. Só existe o olhar que fixa, escraviza e aliena”. Só o olhar amoroso é digno de fé: “O amor nos abraça em tudo quanto vemos”. 

Acredito que, ao “ver” os discípulos em polvorosa diante da imprevista tempestade que se abateu sobre eles, talvez, Jesus lhes dissesse a eles: “Não chorem, meus filhos; não chorem, que a vida é luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos, só pode exaltar” (Gonçalves Dias). Eles estavam tão apavorados que chegaram ao delírio de confundir Jesus com um fantasma. Quando estamos perturbados e imersos numa situação existencial de desequilíbrio os sentidos padecem, a ponto de perdermos a lucidez e a memória.   

Entretanto, o amigo que o chamou para o divino seguimento não falha. "Diante das adversidades, tanto as provadas quanto as previsíveis, é que se conhecem os amigos" (José Saramago). Para além da tempestade Jesus estava atendo à sorte dos amigos e vela por eles. Deus não é insensível aos nossos infortúnios e às crises avassaladoras que se abatem sobre nós. Não se compraz em assistir, impassível, as tribulações e muito menos contemplá-las com indiferença diante dos perigos. Nos momentos mais difíceis da travessia Jesus se apresenta como o Senhor das forças hostis da natureza que os atormentam e diz: “Coragem, sou eu! Não tenhais medo” (cf. Mc 6,50). Jesus é aquele que vê os apuros dos amigos e intervém efetivamente para salvá-los. Importa, todavia, não se agarrar às falsas imagens de Jesus (fantasma), e sim, discernir bem, para descobrir o verdadeiro “companheiro e amigo” da luta renhida nas horas da precisão.

Guimaraes Rosa, o inoxidável escritor mineiro, escreveu: “Viver é muito perigoso. Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”. Viver é pôr-se a caminho sem medo de ser feliz, é viajar, é sair do universo da mesmice, é apaixonar-se, abrir-se ao novo porque “não há caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho” (Gandhi). F. Nietzsche foi enfático: “Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”. 

Não há travessia sem sustos, sem imprevistos e sem vicissitudes. A vida é uma travessia contínua para outras margens, para novas e excitantes experiências. Ademais vanitas vanitatum et omnia vanitas (“vaidade das vaidades e tudo é vaidade”, cf. Ecl 1,2). Importa viver o hoje e saber sorvê-lo com alegria; ninguém pode fazê-lo por mim. Diz-nos o salmista “... findamos os anos como um suspiro. Setenta anos é o tempo da nossa vida, oitenta anos se ela for vigorosa; e a maior parte deles é de labuta e sofrimentos, porquanto a vida passa muito depressa, e nós voamos!” (cf. Sl 90, 9-10). A medicina evoluiu deveras e a longevidade, hoje, é um fato mais previsível. Contudo, a sabedoria do escritor sagrado é inquestionável.  

 
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