Gênese e sentido da festa de Cristo, Rei do universo

(1) Hoje, a Igreja celebra a solenidade de Cristo Rei do universo, isto é, o senhor de tudo e de todos os acontecimentos. Entretanto a verdadeira festa de Cristo Rei deveria ser o dia da epifania, quando os Três Reis Magos se ajoelham diante de um recém-nascido envolto em fraldas, numa estrebaria, quando os grandes da terra, os reis, os sábios que se curvam diante de uma criança. Como se dissesse: o verdadeiro rei não é tanto quem manda, quem sabe, quem é poderoso, quem está no alto, mas o verdadeiro rei é quem sabe acolher o que é pequeno, desprezível, humilde e em formação.

(2) É importante lembrar do contexto histórico que culminou com a proclamação oficial da Igreja de Cristo, Rei do Universo. A gênese desta festa remonta o ano de 1925, quando o fascismo imperava na Itália e Mussolini pousava de rei. Então para se contrapor a essa aberração o Papa Pio XI decidiu apresentar ao mundo Jesus Cristo como o nosso rei. Lá Mussolini, aqui Cristo; lá o rei político, aqui o rei religioso. Esta festa foi pensada como algo pomposo, triunfante, glorioso, como se celebrava para todos os reis mundanos. Mas no Evangelho não há absolutamente nada glorioso ou triunfalista que nos permite extravagâncias.

(3) O evangelho que a liturgia apresenta (cf. Lc 23,35-43) nos oferece a cena do Calvário: Jesus está crucificado e muitas pessoas estão presentes acompanhando o desfecho daquele macabro episódio. As pessoas assistem passivamente o “espetáculo”, continuam assistindo e vão continuar assistindo. Não dizem nada, não reagem, não se rebelam, não se indignam, não pedem explicações, não se mexem. Assistem e participam de um acontecimento pavoroso e de flagrante injustiça sem esboçar qualquer indignação. Elas estão diante do filho de Deus, uma das situações mais cruéis e dramáticas da história e elas têm atitude bovina, como se nada tivesse acontecendo. É indiferença.

(4) O fato daquelas pessoas não fazerem nada não significa que não sejam responsáveis pelo trágico acontecimento. É precisamente por causa da indiferença, da passividade e da omissão que se cometem as piores crueldades, que as nações caem sob o domínio dos déspotas e tiranos, que os crimes hediondos e a carnificina de tantos homens/mulheres são acobertados pelo silêncio covarde. É justamente por causa do desleixo do povaréu que os poderosos pintam e bordam às expensas da espoliação da consciência. Fazem-no sem escrúpulo, certos da impunidade; o povo ignorante e indiferente e com medo de intervir, se torna cúmplice.

(5) Os líderes do povo (autoridades). Os líderes zombam, escarnecem e desprezam Jesus. Com manobras políticas inteligentes, com boa comunicação e maestria nas articulações e nos conchavos eles "dão a volta por cima" e sempre conseguem o que querem. Os poderosos buscam sempre satisfazer os próprios interesses e zombam do povo e de quem os defende. A desfaçatez e a falsidade são a regra. Com aqueles que percebem as maracutaias (Jesus) e as denunciam são ferozes e os condenam ao pelourinho público. “Para se criar inimigos não é preciso declarar guerra, basta dizer o que se pensa” (Luther King).  

(6) Os soldados. Os soldados têm armas e força. Agem em nome do estado. Os soldados representam a ignorância e a obtusidade mental das pessoas ("aproximaram-se para lhes dar vinagre"). Acreditam piamente serem homens livres, fortes e invencíveis; acreditam que são alguém (posse de armas) e, em vez disso, não conseguem perceber que são apenas escravos de uma ideologia e de alguns senhores (líderes). Não conseguem reconhecer que são escravas do sistema e marionetes nas mãos de alguns lobbies que administram suas vidas, mas que fazem se sentir livres e poderosos. É o perigo permanente da lavagem cerebral. Realmente, “o sono da razão produz monstros” (Goya). 

(7) A presença de dois malfeitores. Um dos dois é raivoso e tomado pelo ódio, está revoltado com a vida, com Deus e com todos, como se seu destino fosse culpa dos outros. Mas o que acontece com ele é consequência das decisões de sua vida. Descarrega sobre Jesus todo o ódio, a raiva e o ressentimento que estiola por dentro. Efetivamente, quando as pessoas estão enraivecidas, ressentidas e se sentem frustradas e insatisfeitas inventam bodes expiatórios para quiçá livrar-se das culpas e das mazelas pessoais. 

(8) Todos vomitavam: "Salve-se a si mesmo se, de fato, é o Cristo de Deus, o escolhido!". Trata-se de uma frase irônica, sarcástica e diabólica. Marco Pedron é categórico, ao afirmar: “O que eles dizem a Jesus deveriam dizer a si mesmos”. Eram eles que deviam ser salvos; eram eles que deviam mudar de vida; eram eles que deveriam tomar consciência de serem condenados, os prisioneiros, os alienados e os escravos. Estavam completamente narcotizados, endemoniados. 

(9) Deveriam reconhecer: "Não ele, mas eu devo me salvar". Eles viam alguém ferido de morte e humilhado, mas estavam diante de um homem livre e senhor de si. Eles acreditam serem pessoas livres, mas são crucificados pelos fantasmas do ódio e do fanatismo, pelo medo de viver e escravos da manipulação ideológica. Eles imaginam enxergar, mas são cegos e idiotas. Eles acreditam estar vivos, mas vivem quais cadáveres ambulantes.

(10) Contudo, um dos criminosos compreende e acolhe Jesus. Mesmo naquela situação de total impotência, algo maravilhoso pode acontecer: a capacidade de dizer sim a Deus e acolhê-lo. Ele ousou olhar para Jesus, reconhece a culpa pelos inúmeros crimes cometidos e pede perdão. Salvar-se é se olhar para si mesmo; condenar-se é olhar para os outros. A salvação acontece quando somos capazes de reconhecer os próprios pecados, a própria cegueira e as próprias contradições, as mentiras e implorar o perdão dos céus; salvar-se é abrir os olhos.

(11) Pedron observa que a cena dos dois criminosos é muito profunda. São dois criminosos, dois homens sentenciados e executados por justa causa (pelo menos de Dimas, o “bom ladrão” reconhece: “Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal” (cf. Lc 23,41). São homens que cometeram erros fatais (pecado em hebraico significa errar o alvo). Eles sabiam que estavam errados. Mas um deles admitiu e obteve a graça do perdão, o outro não. Nós também como os dois criminosos, falhamos feio e, às vezes, cometemos crimes horrorosos, especialmente com a língua e com juízos levianos. Diante de Jesus, como nos posicionamos?!  

(12) Ninguém pode obter o perdão se não admitir o erro. Ninguém pode perdoar se não reconhecer as mágoas e as próprias feridas. Judas foi mordido por um sentimento de culpa pelo crime perpetrado contra o filho de Deus, mas não aceitou. Ele cometeu suicídio. Portanto, quem não admite ser pecador não consegue se perdoar e se mata, porque não visualiza a possibilidade da cura e da feliz ressurreição. 

(13) Aceitar o perdão de Deus é dizer a Ele tudo o que somos, tudo o que fizemos, todo o mal que causamos, lamentar e expressar, abrir-se e deixar que Deus cuide de nossas feridas. O diabo (que nos prende à culpa) diz: "Terás de pagar pelos seus crimes!". Mas Deus diz: "Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Ou seja: hoje a tua vida recomeça. Hoje, todo o mal que fizestes foi cancelado e a tua dignidade foi restaurada. “O sol há de brilhar mais uma vez. A luz há de chegar aos corações. O mal será queimada a semente. O amor será eterno novamente” (Juízo Final, canção de Nelson Cavaquinho). 

 
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