Liberdade e os deletérios condicionamentos

Ao meditar sobre Mt 16,13-20, Pe. Marco Pedron, fez refinada intuição sobre o fato de Jesus ter convidado os discípulos a se dirigirem para um lugar distante: “Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e aí perguntou a seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?’”.    Cesareia de Felipe, localizada em terras pagãs, ficava no extremo norte de Israel. Cidade construída por um dos filhos de Herodes, o Grande, Felipe, e, para diferenciá-la da outra Cesareia (Marítima), foi chamada de Cesareia de Filipe. Na época de Jesus era uma cidade em construção.

Essa dica deve ser lembrada, pois perto da cidade havia uma das três nascentes do rio Jordão, do monte Hermon, que também se acreditava ser a entrada para o reino dos mortos. Exatamente aí, distante de tudo e de todos, “Ele perguntou aos discípulos”. Por que, segundo Mateus, Jesus dirige-lhes esta pergunta naquele contexto geográfico? Por que não formula a pergunta em outros ambientes? Porque se os discípulos permanecessem no ambiente judaico, na sua terra, estariam condicionados pela expectativa do Messias triunfante e pelo nacionalismo religioso que dizia: “Somos o povo eleito chamado a dominar todos os outros povos”. Aqui, por outro lado, estão em território pagão, ou seja, longe das influências da “carne e do sangue” (tradição).

Se lhe ensinaram (os maiores ensinamentos não estão contidos nas palavras): “Quem não trabalha não deve comer”, o ensinamento subliminar é que ser trabalhador é um grande valor, a ponto de se relativizar e/ou de não dar nenhuma importância às férias, por exemplo. Pior: em casos estremos chega-se a etiquetar de “malandros” aqueles que curtem férias. Pergunta-se: recusar tirar um tempo de férias é uma opção livre ou puro condicionamento? This is question. 

Se uma pessoa nasce num ambiente cultural e é-lhe ensinado que “os imigrantes são perigosos”. “os negros são sujos; os índios são malandros; os ciganos são bandidos, os pobres não prestam, “bandido bom é bandido morto”, e tantas outras insanidades. Há uma probabilidade grande de se adotar essa pérfida ideologia como dogma e tudo pode se complicar... Pergunta-se: “conheces todos eles?”. A escolha é livre e/ou foi envenenada desde tenra idade? 

Se uma pessoa nasce num contexto familiar profundamente marcado pela religião (não importa se é praticante ou não) e desde pequenino ouvia-se dos pais expressões tipo, quem “não está em ordem não pode comungar”, sem sequer saber o significava a tal da “ordem”. É-se religioso/a por opção ou porque todos acreditam ou porque sempre agiu assim?

Gostemos ou não, estamos terrivelmente condicionados. E quanto mais negamos, mais nos atolamos! Ninguém é mais escravo do que aquele que se imagina livre, sem sê-lo. Ser livre significa romper com as cadeias dos condicionamentos. Só que para sair do condicionamento é preciso suspender o automatismo dos discursos: “ver e emitir juízos peremptórios”. Exercício dificílimo. 

Vejo meu esposo chegar mais tarde em casa: “É sempre assim!”.
Meu amigo está tristonho: “Ele não muda nunca!”.
Meu vizinho frequenta a igreja (mas é sempre o mesmo): “Para que serve a religião!?”.
Penso de pensar, mas na realidade são todos automatismos: “não penso, sou um pobre idiota”.

Um homem livre diz: “E por que não? E se fosse o contrário? Quem afirmou isso?".
Um homem condicionado diz: “É isso! Eu sei! Estás equivocado!".
Um homem livre é um homem que diz: “Não sei!”, “e se eu estiver errado?”. 
O homem condicionado diz: “A regra diz... Cumpra-se!”. Importa submeter-se aos ditames dos outros (leis, tradições, costumes).
Um homem livre diz: “Interessante o que dizes: nunca tinha pensado dessa forma!”.
O homem condicionado nunca concorda com nada porque está sempre com razão.
Um homem livre, diante de uma dúvida, diz: “Vamos com calma! Que pensas?”.
O homem condicionado dá sempre as mesmas respostas/soluções.
Um homem livre se permite fazer novas experiências, ele vibra com coisas novas, com novidades.
O homem condicionado odeia o novo e sempre se refere ao que foi e/ou ao que foi feito ou ao que os outros estão fazendo.
Um homem livre faz coisas que outros não fazem. Quando todos fazem a mesma coisa talvez esteja certo, mas será que há liberdade? 
O homem condicionado faz o que todo mundo faz: ele não pode sair dos trilhos porque isso significaria colocar-se em risco (medo).
Um homem livre é um homem que mudou muitas vezes de opinião sobre a vida, sobre si mesmo e sobre as pessoas; é alguém que aprende com os erros e com as experiências. 
Um homem condicionado é aquele que fará os mesmos discursos e terá a mesma postura daqui a dez anos.
Um homem livre é um homem que não é o mesmo de cinco anos atrás.
O homem condicionado tem os mesmos amigos, anda com as mesmas pessoas e frequenta os mesmos lugares: “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim...”.  
Um homem livre é diferente de todos os outros, não gosta de comparações.
O homem condicionado odeia a diversidade porque o diferente, para ele, é sinônimo de insegurança e de instabilidade, pode obrigá-lo a sair da zona de conforto. 
Um homem livre se veste, age, fala como nenhum outro, não vive copiando e repetindo coisas.
O homem condicionado, por outro lado, tudo faz para obter a aprovação dos todos (criançola).
Um homem livre não fala “mal” dos outros porque está interessado no seu próprio crescimento humano e espiritual. Sabe por experiência que "quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las" (Madre Teresa de Calcutá). 
O homem condicionado, por outro lado, fala “mal” dos outros porque se sente complexado, frustrado e não se suporta, “vê o cisco no olho do irmão e não enxerga a trave que está no próprio” (cf. Lc 6,42).  
Um homem livre é capaz de escutar o outro.
O homem condicionado já tem argumentos engatilhados, respostas prontas para tudo.
O homem livre é humilde e vive com alegria, sabe fazer escolhas sensatas e constrói relações fraternas e amorosas; não guarda ressentimento.
O homem condicionado luta para sobreviver, é reativo, é incapaz de se comover e/ou de reconhecer as surpresas da vida e de Deus.
Aquilo que uma pessoa condicionada/escrava chama de vida, o homem livre chama de morte. Incontáveis são os defuntos ambulantes (incluindo muita gente religiosa) que perambulam por este mundo de Deus quais zumbis perdidos no nada. 

O que é incrível e surpreendente em Jesus é que ele escapou dos condicionamentos da sua cultura. Efetivamente, ele não veio para satisfazer as expectavas de ninguém; seu alimento consistia em fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34). Jesus absolutamente não pensa como todos os outros judeus do seu tempo. Todos pensavam de uma forma, ele não! Todos pensavam que Deus era assim ou assado, mas ele se deu a oportunidade de experimentá-Lo como Pai (cf. Lc 11,2). A grandeza de Jesus consiste em ser diferente de todos os outros, isto é, ser original e ser expressão viva da misericórdia de Deus.

Gandhi dizia que “pensar por si mesmo, sem se deixar condicionar, é sinal de coragem”. É fácil andar na garupa dos outros e/ou ser parasita. Jesus, João Batista e tantos outros santos/as dão testemunho dessa incômoda verdade. Converter-se ao evangelho da liberdade é preciso. “Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” (Cecília Meireles). 

 
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