Mais um ano chega ao fim. E daí?

Mais um ano se foi. Tempus fugit. Sabemos que o ano letivo termina em dezembro, o ano civil aos 31 de dezembro e o ano litúrgico se conclui com a solenidade de Cristo Rei. Marco Pedron lembra que o substantivo ano significa roda, círculo. O diminutivo annulus = anel (que é redondo, circular). Sol-enne significa apenas uma vez por ano. Aniversário (annus+versus) significa que é renovado (que acontece) todos os anos.

A roda, o círculo, não tem começo nem fim. Aí reside o grande risco da nossa vida: passam-se os anos, passam-se os meses, passam-se os dias e continuamos a fazer as mesmas coisas de sempre, sem apresentar qualquer tipo de evolução, crescimento, amadurecimento e progresso na vida. Os anos se tornam uma coleção de automatismos e a vida se torna previsível, odiosa e entediante. Alguns parecem viver na prática àquela noção tosca da filosofia que a entende como “a ciência com a qual ou sem a qual tudo continua sendo tal e qual”. 

Pedron é bastante cirúrgico e radical ao afirmar que se sou a mesma pessoa do ano passado, perdi um ano de vida, ou seja, o que vivenciei não me ajudou a crescer e não aprendi nada. Se continuo repetindo as mesmas ideias de dez anos atrás desperdicei dez anos de vida. Se amo o/a esposo/a da mesma forma que o/a amava há vinte anos, como se fosse um eterno namorado, perdi vinte anos (fixação? medo? infantilismo?). Se a minha crença continua sendo a mesma de trinta anos atrás, continua sendo a mesma do catecismo, perdi trinta anos. 

Mudar é e/ou deveria ser a lei da vida. Entretanto, a tentação do conservadorismo é real e pode atravancar todo processo de crescimento. Por que resistimos tanto? “Mudar é difícil não mudar é fatal” (W. Pollard). No entendimento do filósofo pré-socrático, Heráclito, "nada é estático, tudo se move, tudo muda". Ele ensinava aos seus discípulos: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou…”. As pessoas estão preocupadas em acrescentar anos à vida, mas seria mais razoável e inteligente dar vida aos anos. O “como” vivemos é mais importante do “quanto” vivemos.

Conta-se que num determinado dia um discípulo dirigiu-se ao mestre e disse-lhe: 
"Mestre, quero ficar bom!". 
"Tudo bem”, disse o mestre -, “e se melhorares que farás de bom?". 
"Mas como... o que queres dizer com esta pergunta?
O discípulo ficou surpreso com a resposta do mestre: “quero me curar para me sentir bem". “Entendo”, disse o mestre, “mas quando ficares bom e saudável que farás com a sensação de bem-estar?”. 
“Que vou fazer? Vou viver a vida de antes”. 
“Infelizmente, não ficarás curado. Analisemos: se ficastes doente significa que vivias de uma maneira que não era saudável. Se queres retomar o estilo de vida anterior que te adoeceu como podes desejar a cura?”.

Às vezes, somos tão infantis e dependentes dos outros e/ou das circunstancia que somos incapazes de andar com as próprias pernas e alçar novos voos. Pior: gostamos de repetir o antigo ditado mineiro de que “o seguro morreu de velho”. Cáspita, “ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!” (F. Nietzsche). Por causa da incredulidade, da falta de atitude e da mesmice, o Reino padece violência e as contradições insanas entre os humanos se agigantam. 

No evangelho a exigência da conversão, ou seja, da mudança de estilo de vida é onipresente. Mas os nossos apegos, a nossa rigidez, as nossas inseguranças e tantos outros fantasmas nos amarram... Contudo, cabe perguntar: Que aprendi e/ou desaprendi neste ano de 2022 que está no crepúsculo? O que mudou e que impacto a mudança produziu na minha vida? O que aprendi e fiz de interessante? Tive a coragem de abandonar velhos hábitos e/ou vícios que não estavam agregando nada? Enfim, que decisões tomei em 2022 que, efetivamente, demonstra não ter sido mera reedição do ano anterior? “Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um feito muito maior que o simples fato de respirar” (P. Neruda). 

Que 2023 seja um ano abençoado e feliz! Que Deus nos dê a graça de aproveitarmos bem as oportunidades para crescermos, evoluirmos e darmos o melhor de nós mesmos em vista da ad maiorem Dei gloriam.  

 
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