A menina Maria vivia em Nazaré, uma pequena aldeia nas encostas da Galileia com cerca de duzentos habitantes, distante das rotas comerciais e dos grandes interesses dos poderosos da época.
Efetivamente, Nazaré nunca foi mencionada na Bíblia nem pelos historiadores, um registro nada invejável! Natanael, ao referir-se a Nazaré, objeta: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (cf. Jo 1,46). Ou seja: Como poderia vir o Messias de um vilarejo tão insignificante? Depreende-se, pois, quão vil e insidioso é o preconceito tanto no acolhimento como na apreciação do outro. É um veneno letal que pode levar à morte e à perdição.
Não obstante vermos e experimentarmos com tristeza que a celebração do Natal, em muitos ambientes, tem se tornado apenas um excelente negócio, ou seja, uma festa pagã do consumismo, das prendas obrigatórias, das fartas ceias, das tradições familiares que têm de ser respeitadas mesmo, às vezes, não significando nada... e para muitos “bacanas”, o Natal é apenas um pretexto a mais para viajar, divertir-se e locupletar-se; contudo, a história da encarnação do Verbo ainda enche o coração de muitas pessoas de assombro, de alegria e de poesia.
Como é possível Deus fazer escolhas tão incríveis? No dia que Deus resolveu, através do anjo Gabriel, fazer a inopinada visita a Maria para que ela lhe “emprestasse” o corpo e este se tornasse a porta do céu na qual entraria o Rei da glória, o mundo fez a experiência com o Inefável. Deus não escolheu uma deusa em termos de beleza física nem uma menina de nobre estirpe para se revelar, mas a menor de todas as meninas da aldeia de Nazaré. É a desconcertante lógica de Deus que exalta os humildes e derruba do trono os poderosos e sabichões deste mundo (cf. Lc 1,51-53).
Maria conversa com o príncipe dos anjos, o anjo Gabriel, em pé de igualdade, não se intimida, apresenta objeções, busca informações e pede explicações. Não é uma jovem alienada que vive nas nuvens, mas alguém que tem consciência do que significa enfrentar o futuro e o extemporâneo. Trata-se de um realismo crítico que todo discípulo do Senhor precisa cultivar, se realmente deseja ser capaz de fazer a leitura dos “sinais dos tempos” e contemplar o esplendor do Natal.
Maria, com o seu SIM generoso e maiúsculo, se tornou a Mãe do Senhor e a primeira discípula do Filho, a primeira mulher que acolheu o Verbo de Deus no próprio ventre, a ponto do Filho de Deus assumir a fisionomia humana e tornar-se carne da sua carne: “O verbo se fez carne e habitou entre nós” (cf. Jo 1,14). A Palavra de Deus, quando acolhida na fé e escutada com amor, entra tão profundamente na alma a ponto de transfigurá-la até se configurar à imagem do Senhor Jesus.
Não nos esqueçamos que Maria tornou-se a mulher “cheia de graça” porque o Senhor estava com ela. Ao encontra-la, a prima Isabel, exclamou: “Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (cf. Lc 1,45). Nestes dias que precedem o Natal deixemo-nos, pois, encantar pelo maravilhoso exemplo de Maria e, com ela, ousamos dizer: "Eis aqui o/a servo/a do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra".
Como não ficarmos enternecidos com a figura da Mãe Maria? O valoroso e conhecido compositor, Pe. Zezinho, que canta os feitos e louvores a Deus e ama Maria de modo tão original, compôs umas das canções mais lindas e singelas para homenageá-la: “Maria de Nazaré, Maria me cativou. Fez mais forte a minha fé e por filho me adotou. Às vezes eu paro e fico a pensar, e sem perceber me vejo a rezar, e meu coração se põe a cantar pra Virgem de Nazaré. Menina que Deus amou e escolheu, pra mãe de Jesus o Filho de Deus. Maria que o povo inteiro elegeu Senhora e Mãe do Céu”. Quem não conhece esta pérola do hinário católico?
Concluo esta breve reflexão com um fragmento da extraordinária poesia “Poema do Menino Jesus” de Fenando Pessoa: “Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é o humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina...”. Que Ele, ao nascer, encontre abrigo e proteção em nossas casas! Salve, Maria!