“João era uma lâmpada que arde e ilumina; vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com a sua luz” (cf. Jo 5,35). O Senhor repreende as lideranças religiosas e o povo por não se prepararem devidamente para o advento do Messias. A advertência continua viva porque ainda nos dias de hoje, são inúmeras as atrações e as distrações que nos distanciam de Deus.
Ao invés de levar a sério as palavras e o testemunho do Precursor que o indicava com ardor e com fervor, as lideranças limitavam-se a “regozijar-se apenas por um momento” com a luz que provinha do Batista, “uma lâmpada que ardia e brilhava”. Quais criançolas mimadas, não se importavam com o testemunho de João Batista e de Jesus. Não estavam dispostos a sair da zona de conforto e abraçar as exigências do evangelho.
O risco da superficialidade é também um perigo que nos diz respeito. Podemos perfeitamente transformar os dons e as graças de Deus como ocasiões de gozo momentâneo, sem atentar para a finalidade última que está sempre associada ao acolhimento da mensagem de Cristo. Por viverem assim as consequências foram trágicas para o povo do tempo de Noé: “Eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (cf. Mt 24,39).
Sabemos, por experiência, que ser solidário no embalo das celebrações natalinas é fácil e pode significar um momento de euforia para muitas pessoas de bom coração. Desabrocha no coração de algumas pessoas sentimentos de empatia e de compaixão, e se sentem impedias a realizar ações assistencialistas, contudo nem sempre ocorre um comprometimento efetivo que revele conversão. São apenas lampejos de generosidade. Uma pena!
Charles Dickens, um famoso romancista inglês, escreveu certa vez: “Honrarei o Natal em meu coração e tentarei conservá-lo durante todo o ano”. Este belo e singelo desejo deveria inspirar a todos! De fato, o Natal precisa novamente ser honrado e reverenciado. Muita gente simplesmente ignora e/ou banaliza o real sentido desse evento.
O Natal é, sobretudo, a celebração do nascimento de Jesus, o Verbo de Deus que se fez carne e habitou entre nós para nos salvar (cf. Jo 1,14). Mas grande parte da nossa sociedade, tão consumista, paganizada e alienada, simplesmente celebra o aniversário com pompas e extravagâncias, ignorando tanto o aniversariante como sua mensagem de luz.
Indubitavelmente, a forma mais excelente para se preparar a festa do Natal do Senhor Jesus se se dá no âmbito da espiritualidade, ou seja, no cultivo da oração, da reverência à vida e da abertura ao novo e às surpresas de Deus. O Natal é essencialmente “encontro com o Menino Deus” (Papa Francisco), um encontro que nos obriga a andar por outros caminhos (cf. Mt 2,12).
A oração além de favorecer a intimidade com Deus nos permite adentrar no castelo do Rei dos reis e nos livrarmos das amarras dos ressentimentos e das lembranças amargas que nos oprimem e estragam o nosso Natal. Jesus nasce para expulsar as trevas subjetivas e objetivas. Natal deve ser festa do encontro com a família e em família.
Porém, para espanto de todos o “castelo” que Deus escolheu para revelar todo o seu esplendor e beleza foi a gruta de Belém, na qual o Trono da Graça se fez simples manjedoura, e Aquele que detém todo poder e autoridade nas mãos manifestou-se na fragilidade de uma criança nos braços de Sua Mãe, abrigada numa improvisada estrebaria. Tudo bem ilustrado no Presépio.
Natal é a festa da jovialidade de Deus. Peçamos, pois, a graça de evitar o desperdício do kairós, o tempo de Deus, o tempo oportuno para se mudar de vida. Que possamos abrir os nossos corações para acolher com toda amplitude e profundidade o projeto de Deus para nós e a não nos contentarmos apenas com as exterioridades e com a dimensão comercial da festa.
Feliz e santo Natal!