O Menino-Deus vem vindo

Por Pe. Roberto Jerônimo Gottardo,SJ

As figuras do profeta Isaias, de João Batista, de Nossa Senhor e de São José são particularmente emblemáticas no tempo litúrgico do Advento. De alguma forma são eles os personagens que pautam a espiritualidade própria deste tempo abençoado. Trata-se de um tempo fecundo e alvissareiro no qual somos convidados a cultivar a esperança e a alegria de quem aguarda a chegada de Alguém muito importante. 

“A alegria é a minha única salvação” escreveu C. Lispector. Como estamos vivenciando este tempo de preparação do Natal que a Liturgia nos propõe? Estamos realmente empenhados ou somos semelhantes às crianças travessas descritas pelo Senhor na passagem evangélica: “A quem compararei esta geração? Ela é como crianças que se assentam nas praças, a desafiarem-se mutuamente: ‘Nós vos tocamos flauta, e não dançastes! Entoamos lamentações e não batestes no peito!’” (cf. Mt 1,16-17).  

Encontramo-nos em pleno Advento. A espera pelo nascimento do Menino-Messias-Deus enche o coração de alegria e de expectativa, basta um passeio pela cidade (à noite) para constatar que há um clima diferente no ar. Na liturgia se sente o ar perfumado da sublime fragrância que preanuncia as sinceras e inefáveis alegrias natalinas. Não obstante a sociedade estar se tornando sempre mais cinzenta, materialista e entregue aos prazeres imediatos e mundanos, podemos afirmar que resquícios tímidos do cristianismo subsiste, ainda brilham e despertam interrogações no coração de muitas pessoas.

“O admirável sinal do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus” (Papa Francisco). A Igreja, neste tempo do Advento do Senhor Jesus, “toca flauta para nós”. As leituras, as orações, os cantos, as cores litúrgicas, as velas da coroa do Advento, o presépio, etc. são símbolos, gestos, atitudes que nos falam da verdadeira e única alegria que consiste no acolher Aquele que vem armar a tenda entre nós (cf. Jo 1,14). “Tu vens, tu vens... Eu já escuto os teus sinais” (da canção “Anunciação” de Alceu Valença). 

Pergunta-se: será que as pessoas, hoje, estão dispostas a “dançar” ao som da flauta do Presépio ou estão mais afeitas e interessadas às presepadas do Papai Noel? Em muitos ambientes, infelizmente, o santo Natal tornou-se mero pretexto para dar azo ao consumismo desenfreado e voraz; luzes e cores adornam mais as lojas do que as casas das famílias. Uma celebração essencialmente religiosa transformou-se num período de consumo, de troca de presentes, mas não de convivência em torno do mistério celebrado, de doces melodias, de demonstrações de afeto, de perdão e de gratidão pelo extraordinário evento que celebra o advento do Verbo de Deus que assumir um corpo como o nosso. 

Algo análogo acontece no contexto da Quaresma. Durante aquele período de forte apelo à penitência e à mudança de vida, a Igreja canta lamentos e quem é que bate no peito com sinceridade? 

À geração travessa e absolutamente alienada, o evangelista lembra que “a sabedoria foi reconhecida como justa pelas obras que realiza” (cf. Mt 11,19). A Igreja nas suas autênticas expressões de piedade e de adoração deve ser reconhecida pelas boas obras que realiza. Configurada à imagem e semelhança do seu Divino Esposo, Ela mostra-nos a sabedoria de Deus que, por um lado, exorta o pecador para que endireite os tortuosos caminhos e se converta; e, por outro, lhe envia sinais de alegria e de esperança para que se encante com a singularidade do Menino que deseja encontrar espaço no coração humano para nascer.

Esforcemo-nos, pois, em viver este tempo com as velas acesas e com ânimo, em família, da forma mais evangélica, criativa e alegre possível. Não nos contentemos apenas com a exterioridade e com as aparências de piedade! Que a Virgem Maria e São José nos acompanhem na nossa viagem a Belém, inspirando-nos sentimentos de carinho e de reverência por aquele Menino que vem encher os nossos corações de alegria com o seu imensurável amor! Que Ele não nos encontre distraídos! 

 
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