“Olhai a figueira e todas as árvores. Quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto. Vós também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Reino de Deus está perto” (cf. Lc 21,29-31).
Estamos na iminência do início do tempo litúrgico do Advento. Entretanto, antes de iniciarmos o novo Ano Litúrgico, o evangelho nos desafia a discernir os sinais dos tempos, ou seja, a compreendermos o sentido profundo dos acontecimentos à luz da fé, tendo numa das mãos o evangelho, a palavra que não passa; e, na outra, as vicissitudes da história e as contradições inerentes à história construída pelos homens/mulheres.
Muitas vezes nossas comunidades padecem uma espécie de esquizofrenia evangélica, fecham-se nas igrejas e se voltam para um Deus metafísico (ídolo), elaboram belos e complexos rituais, mas se mantêm assépticas e distantes dos assuntos do mundo. É daí que emerge a religião balofa, ópio e fonte de toda alienação, ou seja, o espiritualismo estéril e inconsequente. É quando o sal (evangelho) perde o sabor e serve apenas para ser pisoteado pelos homens e ser desdenhado pela cultura dominante.
É verdade que, diante de tantas desgraças que acontecem no arco de nossa vida, diante da avalanche de infortúnios que nos chegam todos os dias através da mídia, diante das tantas contradições que nos afligem e da maldição da violência onipresente em nossos relacionamentos e na vida em sociedade, diante de tudo isso, o Senhor nos desafia a não nos deixarmos afundar no pessimismo: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (cf. Lc 21,28).
Às vezes, por nos sentirmos tão impotentes e miseráveis, a reação pode ser de desânimo ou de medo. Na realidade, o Mestre pede aos discípulos que resistam e persistam e não desistam, tenham uma visão elevada e diferente da vida. E conclui, como para selar a sua promessa: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (cf. Lc 21,33).
Graças à ação do Espírito Santo, a Palavra do Senhor permanece em nós, habita em nós e está entranhada em nós. Não importa quem ou o que nos oprime, o que ou quem nos incomoda, o que ou quem nos assusta. A Palavra encarnada permanece firme porque é imortal e está enraizada em nós.
O Verbo feito carne cria, continua criando e recriando o sonho de Deus; Ela explicita, comunica e manifesta a intencionalidade divina acerca de nós e sobre a história. A Palavra que não passa lateja em nós e deve ser o bálsamo do nosso cotidiano. A nossa vida está grávida de sentido e de beleza, mas nem sempre enxergamos.
Não tenhamos medo das “más notícias” nem dos inimigos do evangelho, recorramos sempre à força da Palavra libertadora do evangelho que permanece e que, se levada a sério, pode verdadeiramente mudar o destino da nossa breve e frágil existência neste mundo. Não obstante sabermos que “viver é a coisa mais rara do mundo – a maioria das pessoas apenas existe” (O. Wilde) não percamos a capacidade de pensar e de sonhar.
Ao invés da paralisia do medo doentio, somos instados a vencer o marasmo e a anunciar o Evangelho com inteligência e criatividade, com ferramentas e linguagens adequadas, fazendo ecoar com novos acentos a Palavra que não se deixa corromper pelo tempo nem pelos modismos. São Paulo é claro e objetivo: “A Palavra de Deus não está algemada” (cf. 2 Tim 2,9).
Não necessitamos correr atrás de fábulas nem de soluções mágicas: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente” e os dois atributos fundamentais da sua divindade são a imutabilidade e a eternidade (cf. Heb 13,8). O Senhor nos ama de verdade, mas o que e como propor aos homens/mulheres de hoje para que descubram a face do Deus de Jesus depende da qualidade do anúncio e das disposições da terra onde são semeadas as sementes (cf. Lc 8,5-15).
Procuremos, pois, levar a sério o evangelho de Jesus, deixemos que a Palavra revelada ilumine e influencie as nossas decisões e a história que escrevemos; que o evangelho efetivamente plasme a vida das nossas comunidades, muitas infelizmente estão se arrastando e parecem semimortas. Uma realidade deprimente e triste. Procuremos, pois, levar a sério a mensagem sempre nova do Verbo de Deus e que aprendamos Dele a fazer a leitura dos sinais dos tempos!
Que Deus nos dê a graça de reconhecer que "conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; encontrá-lo é o melhor que pode ocorrer na nossa vida, e torná-lo conhecido através das nossas palavras e obras é nossa alegria" (DAp 29).
Façamos do tempo do Advento um tempo fecundo e de cultivo da graça de Deus em nós. É tempo de alegria, de esperança e de fazer frutificar os dons do Espírito semeados em nós no dia que fomos enxertados em Cristo pelo Batismo. É, sobretudo, tempo de conversão!