Os nossos avós vivem em nós

Por Pe. Roberto Jerônimo Gottardo, SJ

A jornalista e roteirista, Renata Tupinambá, escreveu um artigo maravilhoso, intitulado: Somos as sementes dos sonhos de nossos avós. Trata-se de um texto original, inspirador e profundo que nos remete às raízes da vida e nos desafia a reconhecer e a amar sempre mais os nossos ancestrais. Subjaz no texto a sabedoria indígena que palpita na alma e na biografia da autora (cf. https://racismoambiental.net.br/2016/02/22). 
 
Recolho aqui, alguns fragmentos do referido texto com livres adaptações. A autora, alicerçada na cosmovisão indígena, começa lembrando que aprendera de uma anciã que somos árvores que caminham, carregamos galhos, raízes e todos aqueles que vieram antes de nós são estrelas que brilham no nosso céu.  

Hoje, 25 de julho de 2022, dia que fazemos memória dos avós de Jesus, São Joaquim e Santana, é justo e necessário lembrá-los e homenageá-los. E fazê-lo em comunidade participando da Eucaristia é divino. Afinal, a “gratidão é a memória do coração” (Antístenes). A vida espiritual nos induz à comunhão com Deus e reativa a nossa capacidade de amar, às vezes, embotada e cansada pela monotonia cotidiana. Aprendemos de Jesus que, quando inebriados pelo amor de Deus transbordamos compreensão, paciência e ternura na nossa vida relacional.   

Feliz de quem tem o privilégio de contemplar desde a tenra idade a beleza da vida longeva e fecunda dos avós, como também escutar suas histórias, experiências, conselhos e ver seus exemplos permanecerem vivos e tomando formas, se adaptando a novos tempos e lugares. Entretanto, o saber dos antigos só germina quando encontra o solo fértil no desejo das novas gerações de aprender, de escutar.  

Feliz de quem aprende com os antigos a ver a vida com os olhos da mãe natureza, augura Tupinambá, grande livro de sons, de silêncios, de sabores, de odores, de beleza, de fascínio, de surpresas e de força! Importa também aprender a regar o jardim da cultura deixando florescer na forma que vemos o mundo e a vida, como a maior riqueza. Os nossos avós são semeadores de sonhos e de desejos. 

Desde o dia que nascemos mergulhamos em um rio; a água está sempre em movimento na direção que a correnteza arrasta tudo em seu fluxo. Podemos sentar próximos de suas margens e calmamente observá-lo. O rio tem uma sabedoria que apenas com os olhos da fé é possível captá-la e ler seus sinais. Ele sempre segue em frente... “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz serem violentas as margens que o comprimem” (Bertolt Brecht). 

Os avós representam a memória da história que não conhece ocaso. Conversar e entreter-se com os avós significa soprar as brasas de tantas lembranças... Os ancestrais são os troncos das culturas e de experiências infindas. É justo reconhecê-lo, como o fez o autor sagrado: “Façamos o elogio dos homens ilustres, que são nossos antepassados, em sua linhagem” (cf. Eclo 44,1). O respeito à ancestralidade não consiste apenas em deter-se nas antigas tradições e nos conhecimentos que eles acumularam, mas em reconhecer ser impensável a nossa existência sem ela. Não é possível viver sem considerar os nossos antepassados; eles latejam e pulsam em nós e através de nós. O sangue deles circula em nossas veias.  

Estamos sempre indo ao encontro das nossas origens, desejamos beber das fontes. O salmista reza com fervor: “A minh'alma tem sede de Deus, pelo Deus vivo anseia com ardor. Quando irei ao encontro de Deus. E verei tua face, Senhor? ”. Somos seres nostálgicos. Rubem Alves escreveu: “Por fora, no mundo cotidiano do trabalho, estamos em busca de coisas novas. Mas a alma, nas penumbras em que mora, vive à procura de coisas velhas. Alma é saudade. Saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam”.
 
Para além do DNA, os nossos avós vivem em nós, a vida deles, de alguma forma, está viva em nossos corpos: seus conselhos, suas palavras, suas angústias, seus medos, sus memórias, seus sonhos ganham vida e visibilidade em nós. Não há espaço para dúvidas: os ensinamentos deles ecoam nas vozes das gerações que se sucedem, sendo repassados como uma grande e misteriosa teia que se interliga no interior da dinâmica da história. Pena que prestamos tão pouca atenção nas multifacetadas manifestações na bondade de Deus em nossas vidas! Infelizmente, nos tornamos consumistas vorazes, pessoas superficiais que se contentam com banalidades do momento.     

Em nome de todos os membros da Pastoral da Família da Paróquia de Santo Antônio de Sinop, manifesto, aqui, a minha alegria e gratidão a Deus pela presença dos avós em nossas vidas. Sejamos-lhes eternamente agradecidos pelas sementes de amor que espalharam, por tudo o que fizeram e fazem por nós, e pelos sonhos que plantaram em nossas vidas. A gratidão santifica todas as coisas. 

“Não nos esqueçamos dos nossos avós. Aprendamos a parar, a reconhecê-los, a ouvi-los. Não os descartemos”, adverte o Papa Francisco. PARABÉNS QUERIDOS AVÓS E AVÔS! 

São Joaquim e Santana, rogai por nós. 

 
Indique a um amigo
 
 
Mais artigos
Copyright © Paróquia Santo Antônio. Todos os direitos reservados