Por Pe. Gottardo,SJ
“Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco” (cf. Mc 6,31). Será a instituição evangélica das férias?! Diz-nos o evangelho que “a multidão era tão numerosa que os Apóstolos sequer encontravam tempo para se alimentar”. Deviam estar esgotados por causa da intensidade do “estágio pastoral”. Ser operário da messe implica em fatigas e desgastes que quem está “fora” sequer pode suspeitar.
Certamente, Jesus os convidas para descansar “um pouco” porque antevia o perigo da armadilha do ativismo dos apóstolos, da síndrome da onipotência e da presunção de acreditar que sem eles o mundo não seguiria adiante. É como se Jesus dissesse a eles: quando morrerem o mundo continuará sendo mundo na sua indomesticável dinâmica. Portanto, não vos inquieteis.
O descanso é uma necessidade física e emocional indispensável. A experiência prova e comprova que aqueles que habitualmente se obrigam a prescindir dela correm o risco de exaustão e do adoecimento. É verdade, hoje vivemos em um mundo onde se impõe a lógica da pressa, da ideologia de que “tempo é dinheiro”, do eficientismo insano. Jesus, no entanto, reconhece o direito de seus discípulos de descansar e fazer uma pausa após o trabalho. É sempre importante lembrar do livro do Gêneses: “No sétimo dia, Deus já havia terminado a obra que determinara; nesse dia descansou de todo o trabalho que havia realizado” (cf. 2,2). O Senhor também descansou depois de realizar a maravilhosa obra da criação.
Temos consciência da necessidade de nos afastarmos do frenesi das inúmeras preocupações cotidianas e da nossa vida trepidante, para repousarmos um pouco? Sabemos repousar e/ou estamos tão fissurados na lógica do trabalho e da produtividade que somos incapazes de fazê-lo? Somos capazes de nos desligarmos “um pouco” da televisão, da Internet, dos vídeos, dos barulhos de todas as espécies? Ousamos encontrar-nos no silêncio, face a nós mesmos, face a Deus? Se não conseguimos cabe a pungente questão: do que estamos fugindo?
A missão de Jesus foi intensa, diuturna e ininterrupta: foram grandes as fadigas, as noites em oração, as decepções, os conflitos... Numa das travessias de barco, aproveita mesmo para repousar um pouco e dormir (cf. Mt 8,24). Ele percebia o cansaço e a fadiga dos seus companheiros. Convida-os a respeitar também as exigências da natureza corporal, a ter um pouco de repouso. É preciso aprender a curtir momentos de recreação para recriar-se, para aperfeiçoar-se na missão. O mundo exige performance, Deus pede para vivermos e convivermos. “Não sois máquina! Homens é que sois!” (C. Chaplin).
Às vezes, mergulhamos num ativismo neurotizante e acabamos por perder as referências; deixamos de ter tempo e disponibilidade para nos encontrarmos com Jesus, para confrontar as nossas opções e verificar as nossas motivações com o projeto de Jesus. Outras vezes, tornamo-nos funcionários eficientes, que resolvem problemas pontuais, mas sem oferecer às “ovelhas sem pastor” um alento e caminhos alvissareiros; em outras situações, por causa do peso da rotina, muitas ovelhas se cansam e abandonam a atividade e a participação na comunidade.
No entanto, há também os mandriões, os parasitas e os vagabundos que fazem “férias” o ano todo. Aliás, estes são os mais espertos em matéria de preocupação em “descansar”. E eu/nós como reagimos ao convite do Mestre? Sabemos bem que as férias não são um luxo, se corresponderem àquilo que se propõem: precisamente para respeitar a nossa natureza humana, que exige tempos de pausa/relaxe, não apenas físico, mas também intelectual, psíquico e espiritual.
Importa ainda lembrar que as férias não são um tempo de ócio, mas de “recriação”, para retomar energias, oxigenar a mente, conhecer-se mais e conhecer outras paragens. Infelizmente, sabemos que há ainda muitos homens, mulheres e crianças que são explorados como vulgares máquinas para produzir. Isso não é respeitar a vontade criadora de Deus. Pior ainda: muitas pessoas transformadas em mercadoria sequer podem sonhar em “curtir” alguns dias de merecido descanso.
Portanto, o evangelho reforça a importância do descanso, também para os “operários” do Evangelho! É fato inequívoco que o número de apóstolos diminui, mas as funções pastorais aumentam e a fadiga também. Muitos agentes encontram-se assoberbados devido as tantas responsabilidades. Não obstante a sofisticação dos recursos científicos e tecnológicos, os desafios da ação evangelizadora são tremendos. O processo de conversão e adesão ao evangelho continua encontrando obstáculos de toda ordem.
Contudo, “descansar” é preciso. Não sejamos resistentes à proposta de Jesus: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. Não desperdiçamos as oportunidades! Com o coração cheio de esperança, evoco o saudoso Henfil: “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente”.