É tempo de Advento. É tempo de preparar “o caminho do Senhor” que vem vindo para armar a tenda entre nós. É tempo de esperança. É também tempo de expectativa. É tempo oportuno para aprendermos a conjugar o verbo esperançar. É tempo de preparação jubilosa e alegre para que o novo de Deus irrompa em nós e nos faça pessoas melhores, mais sensatas, mais justa, mais solidárias e mais divinas. É tempo de mergulhar no mistério de Deus que se torna tangível no corpo de uma criança que nasce, para espanto de todos, numa estrebaria. É tempo de conversão. É tempo de preparar uma festa maravilhosa para a chegada do Menino-Deus. É tempo de acolher o Divino em nossa vida.
E o que podemos e devemos fazer para que a celebração do Natal do Senhor nseja apenas a evocação de um evento do passado sem nenhuma fecundidade e/ou iluminação para o tempo presente? Pior: mera festança folclórica e comercial! Acredito que a busca contínua da essencialidade da vida, da verdade da fé e dos desejos de Deus sejam as atitudes mais acertadas para preparar o caminho do Senhor. O profeta Isaías, através do evangelista Lucas (cf. 3,4-6), nos oferece coordenadas precisas e bem originais para um efetivo e honesto exame de consciência. Quem nos ajuda com notável perspicácia a compreender o alcance das palavras do profeta é o psicólogo e teólogo italiano, Pe. Marco Pedron.
a. Endireitai as suas veredas. Não é verdade que, às vezes, somos arrastados por pensamentos obscenos, agressivos e cruéis? Não é verdade que, às vezes, olhamos para a mulher (ou para o homem) com o olhar impuro e com desejo de posse? Não é verdade que, às vezes, especialmente, nesses tempos de intolerância e de tanta gente ressentida - algumas regurgitando raiva assassina e ódios -, que nós também temos vontade de despedaçar alguém como os leões? Não é verdade que, às vezes, damos aso a comportamentos perversos, cínicos e indecentes, compartilhando estultices nas redes sociais e/ou em conversas? Não é verdade que, às vezes, por detrás do nosso lindo rosto sorridente, da nossa aparente religiosidade e da nossa simpatia se esconde um hipócrita empedernido? “Endireitai as veredas” significa endireitar as nossas vidas, libertar-se das mentiras que mantém a nossa liberdade cativa. b. Sejam alteados todos os vales. Não é verdade que, às vezes, existem enormes déficits e/ou buracos emocionais em nós? Não é verdade que, às vezes, há mãos que clamam por atenção e corpos que anseiam por ternura e nós fingimos não ver? Não é verdade que, às vezes, por causa do nosso entranhado orgulho, nos sentimos preteridos/abandonados e temos a sensação de que ninguém nos ouve, de que ninguém nos defende e cuida de nós, e fingimos estarmos felizes? Não é verdade que, às vezes, nos sentimos imersos no nada, no mais absoluto vazio e engolidos pela escuridão? Não é verdade que, às vezes, rimos e nos divertimos simplesmente para fazer média com o outro e/ou adequarmo-nos ao ambiente que estamos? Não é verdade que, às vezes, somos como um iceberg porque não sentimos o calor humano no nosso entorno? Não é verdade que, às vezes, nos tornamos tão insensíveis e encouraçados que desenvolvemos a habilidade de temer o sol do amor como um dos piores demônios? Não será por isso que tantas pessoas que vivem no vale das sombras se enterram nos vícios, nos modismos e no consumismo desenfreado?!
c. Abatidos os montes e as colinas. Não é verdade que, às vezes, somos soberbos e presunçosos? Não é verdade que, às vezes, somos movidos pela inveja e pela competição a tal ponto que nos incomodamos deveras quando o amigo/a encontrou um bom emprego e/ou enriqueceu? Não é verdade que, às vezes, acreditamos sempre ter a última palavra e sermos os melhores em tudo, os mais honestos, os mais perspicazes, os mais inteligentes, os mais simpáticos, etc.? Não é verdade que, às vezes, nos sentimos superiores aos outros? Não é verdade que, às vezes, julgamos os outros porque nos sentimos inferiores? Não é verdade que, às vezes, o que os outros fazem é sempre passível de crítica porque só nós sabemos fazer bem as coisas? Não é verdade que, às vezes, há algo podre dentro de nós e que também temos nossas contradições, só que não temos a coragem de assumi-lo? Não é verdade que, às vezes, acreditamos que as desgraças que se multiplicam no mundo diz respeito apenas aos outros, e nunca nos atingem? É impossível abater as colinas do orgulho e da cegueira, reconhecer as próprias fragilidade e vulnerabilidades com tanta arrogância e com tanto farisaísmo.
d. Endireitem-se os caminhos tortuosos. Não é verdade que, às vezes, nos deparamos com escolhas difíceis, tortuosas e atormentadas e ficamos paralisados? Não é verdade que, às vezes, sabemos como devemos afrontar um problema para ajudar quem necessita, mas nos omitimos? Não é verdade que, às vezes, protelamos certas operações e/ou decisões só por causa do nosso egoísmo e do comodismo? Não é verdade que, às vezes, pelo fato de toda mudança ser desafiadora, envolvente e autoimplicativa nos esquivamos de realizá-la? Não é verdade que, às vezes, inventamos mentiras e/ou desculpas esfarrapadas para não iniciarmos novos caminhos, precisamente por serem novos, árduos e tortuosos? Pergunta-se: como podemos ser protagonistas da nossa própria vida se somos tão covardes, calculistas e medrosos? Há muita coisa torta em nossa vida que não admitimos.
e. Aplanem-se as veredas escarpadas. Não é verdade que existem fatos difíceis de digerir e memórias passadas que preferimos deletá-las? Não é verdade que, às vezes, escondemos esqueletos nos armários das nossas casas? E o que dizer dos inúmeros monstros interiores (culpas, complexos, paranoias, feridas, etc.) que nos atazanam dia e noite? Não é verdade que, às vezes, trancamos as portas dos nossos corações às pessoas para que elas não nos conheçam e impedimos o acesso de outras? Não é verdade que, às vezes, carregamos tantos traumas que latejam n’alma, mas que teimamos em reprimir e ignorar? Não é verdade que, às vezes, há tantas mágoas enrijecidas em nós que tudo fazemos para que não emerjam das profundezas para não sofrer de novo? Em todas essas áreas subterrâneas, esses lugares inacessíveis, onde ninguém tem acesso, será que não é espaço para a ação de Deus? Como pode alguém se tronar filho da Luz com tantas veredas escarpadas e em meio a tanta escuridão?

