I. O biblista, Paolo Curtaz, detecta uma baita contradição nas palavras de Jesus quando afirma que o primeiro mandamento é o amor! É possível ordenar alguém a amar? O amor não é exatamente o oposto da constrição e da obrigação? Há uma diferença profunda e substancial entre a norma e a espontaneidade que deriva do enamoramento? É impossível "mandar" alguém amar? É uma objeção inteligente. O problema está naquilo que se apresenta como óbvio.
Porém, há um mandamento anterior. Trata-se de um mandamento que emerge de uma leitura aprofundada de toda a história da salvação. E este mandamento nos diz: deixe-se amar. A experiência de Israel, o anúncio dos homens eminentes ao povo, o testemunho apaixonado e vibrante de Abraão, de Moisés, de Davi, dos Profetas, estão todos inseridos nesta verdade: Deus nos ama, deixemo-nos amar.
O profeta Oseias descreve com palavras ternas e luminosas o “como” Deus nos ama: “Com vínculos humanos e os atraía, com laços de amor eu era para eles como os que levantavam uma criancinha contra o seu rosto, eu me inclinava para ele e o alimentava” (cf. 11,4). Ou seja, Deus nos ama como um pai/mãe que acarinha o seu filho e o aperta no seu rosto, sem exigir recompensa.
Se descobrirmos que somos amados, queridos, acolhidos por Deus pelo que somos, então, e só então, podemos amar “o Senhor com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento”. Só a partir desta percepção podemos amar a nós mesmos, acolher-nos em nossas dimensões mais obscuras sem mascará-las ou negá-las, sem sermos oprimidos por elas.
Só a partir daí podemos amar nosso irmão além das aparências, além dos interesses, amá-lo como ele foi intencionado pelo Criador. A religião que realmente merece crédito é aquela centrada no amor, na compaixão e na empatia. Não é isso que queremos? Precisamente não é isto que buscamos e mais precisamos: sentir-nos amados, sentir-nos contemplados no interior de um coração amoroso?
II. Ouvimos no evangelho de Mateus (cf. 22,34-40) que as lideranças religiosas mancomunadas com o Sinédrio se articulam para competir com o Nazareno e colocá-lo em embaraços. Os saduceus foram amplamente humilhados num embate anterior com Jesus (cf. Mt 22,23-33). Agora, segundo Curtaz, cabe aos perushim, os puros, os fariseus, enfrentá-lo; por isso, enviam nada menos que um doutor da Lei para interrogar Jesus, alguém que tinha idoneidade acadêmica.
Portanto, o enfrentamento que se preanunciava não seria como o carpinteiro que se improvisava como profeta, sem qualificações ou mandatos oficiais, sem pertencer a um dos movimentos da época, mas com uma autoridade competente e com grande poder retórico. O intento deles era defender a ideologia religiosa vigente e não a conversão ao evangelho.
A pergunta é uma das mais clássicas, servia para sondar a bagagem teológica e bíblica daquele que seria sabatinado: “Mestre, dos 613 preceitos da nossa religião qual é o mais importante?”. Pergunta capciosa e impertinente porque para os fariseus todos os mandamentos eram igualmente importantes e aqueles que não os respeitavam eram condenados.
Bem diferente era a posição dos rabinos mais esclarecidos e contemporâneos de Jesus. Por não serem sectários e fundamentalistas, eles interpretavam a Lei e a ensinavam, em linhas gerais, de modo mais alinhado ao pensamento do Mestre de Nazaré. Efetivamente, são dois os mandamentos bíblicos que resumem toda Lei e os Profetas: amar a Deus e amar o próximo. São mandamentos que estão ao alcance de todos.
Todos nós de alguma forma intuímos que uma vida feliz, razoável e decente passa pela experiência de amar e ser amado. Que é o inferno senão o desamor e a solidão absoluta?! Na verdade, é o maior desejo da alma humana! E Deus "ordena" que façamos exatamente o que mais desejamos! Amar. Mas quem inventou o amor provavelmente sabe melhor do que nós em que consiste o amor. Amemos o amor com que somos amados. “Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (cf. 1Jo 4,7).
Agora, se alguém afirmar que amar é tarefa fácil é mentiroso. Que ninguém se iluda: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (cf. Lc 9,23). O drama, portanto, é que o amor não é amado. Nós amamos tantas coisas neste mundo: dinheiro, prazeres, fama e poder. Tudo, menos o que é mais amável, o Amor que se encarnou e armou a tenda entre nós. A revolução começa no interior das nossas famílias através da educação dos nossos filhos/as.