Quando o dinheiro se torna estrume do diabo

Para compreender a parábola de Lucas (cf. 16,1-13) é preciso reportar-se aos versículos seguintes: "Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam dele. Jesus lhes disse: “Vós sois os que querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; o que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus” (cf. Lc 16,14-15). 

O Papa Francisco em certa ocasião, ao referir-se ao dinheiro, citou São Basílio de Cesareia (+ 379), que afirmava abertamente ser “o dinheiro o estrume do diabo” e que quando se torna um ídolo “ele comanda as escolhas do homem”. Não por acaso, São Paulo afirma “ser o dinheiro a fonte de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se afligem com múltiplos tormentos" (cf. 1Tm 6,10). 

Indubitavelmente, a raiz da miséria e da injustiça não está na falta de dinheiro, mas na falta de vergonha, de certa minoria que possui muito, muitíssimo... Essa situação escandalosa se deve, em grande medida, justamente à idolatria à deificação do dinheiro (Mamon). Por ele tem gente que sacrifica tudo. 

Recolho, aqui, com livres adaptações, alguns tópicos do excelente artigo “O Papa e o estrume do Diabo” – uma reflexão a partir da fala do Papa que provocou não poucos burburinhos –, publicado pelo vetusto jornalista, Mauro Santayana, no dia 27 de novembro de 2016, no Jornal do Brasil.    

Em nossa época, deixamos de honrar pai e mãe, de praticar a solidariedade com os mais pobres, com os discriminados e os excluídos, para praticar e viver o hedonismo sem freios e sem limites.

Muitos pais transmitem aos filhos, como primeira lição e maior objetivo na existência, a necessidade não de sentir e/ou de compreender o mundo e a trajetória mágica da vida – presente maior que recebemos de Deus quando nascemos – mas, sim, a de ganhar e acumular dinheiro a qualquer preço.

Escolhe-se a escola do filho, não pela abordagem filosófica, humanística, às vezes nem mesmo técnica ou científica, do tipo de ensino, mas pelo objetivo de entrar em uma universidade para fazer um curso que dê grana, com o objetivo de fazer um concurso que dê grana, estabelecendo, no processo, uma “rede” de amigos que têm, ou provavelmente terão grana.

Em muitas famílias o critério que determina a escolha da profissão e o que fazer na vida, é ganhar dinheiro.

Escolhe-se a carreira pública, ou a política, majoritariamente, pelo poder e pelas benesses, mas, principalmente, pelo dinheiro.

Montam-se igrejas e seitas, também pelo poder, mas, sobretudo, pelo dinheiro.

Até mesmo na periferia, assalta-se, mata-se, se morre ou se vive pelo dinheiro.

Por causa da idolatria ao dinheiro há quem trabalhe doze ou quinze horas por dia, há quem sacrifique a própria vida, há quem venda a própria consciência e renuncie veneráveis princípios; há quem não tenha escrúpulos em sacrificar a vida dos seus irmãos com a venda de drogas e de armas que matam; há quem seja injusto, explore os empregados, se recuse a pagar o salário justo; há quem adota a mentira e a corrupção como estilo de vida. Pergunta-se: até onde seríamos capazes de ir por causa do culto ao deus dinheiro?

Reverencia-se aberta e sarcasticamente o egoísmo e o lucro, antes da solidariedade, a cobiça; antes da construção do espírito, o prazer; antes da sabedoria, o interesse por auferir lucros; antes das relações saudáveis com o outro, a manipulação e a mentira, o levar vantagem em tudo.

É preciso defender o dindin como símbolo e bandeira de uma ideologia clara, que se baseia na apologia da competição individual desenfreada e grosseira, e de um “vale tudo” desprovido de pudor e de caráter.

Em nome da ideologia da meritocracia uma minoria endinheirada adora vender a farsa que ser feliz significa viver, se divertir, ganhar dinheiro. Enquanto outros não deveriam sequer ter nascido porque são atrapalham. 

Aprende-se cedo que o importante é o ter e ostentar descaradamente, mesmo que, para isso, se tenha de se acostumar a pisar no outro, da forma impiedosa e covarde. Principalmente, quando o outro for mais “fraco”, “diverso” ou pensar de forma diferente de uma matilha malévola e ressentida antes e depois do sucesso e da fortuna, que se dedica à prática de uma espécie de bullying que durará a vida inteira, até que a sombra da morte os apenhe qual alçapão. O Dia do juízo chegará para todos. 

O culto ao Bezerro de Ouro, ao dinheiro e ao desejo de prazer ilimitado está nos conduzindo para um mundo em que a tecnologia tornará os mais pobres absolutamente descartados e inúteis.

O mundo do Bezerro de Ouro será, – como alguns sonham – um mundo perfeito, onde os pobres, os críticos e os utópicos – sempre que surgirem –   serão caçados a pauladas e tratados a chicotadas, e, finalmente, perecerão, contemplando o céu, nos lugares mais altos, para que todos vejam, e sirva de exemplo, como aconteceu com um certo nazareno chamado Jesus Cristo, há 2.000 anos.

Parafraseando um adágio antigo, ouso afirmar: “Diga-me como lidas com o dinheiro que eu te direi quem tu és”. Quem em sã consciência defende a teologia da prosperidade continua zombando do Deus de Jesus e manipulando o evangelho. A riqueza é sempre fruto da injustiça, mas para os fariseus era sinônimo inequívoco das bênçãos de Deus. Para eles, quem era amigo de Deus deles recebia a benção da riqueza, quem era fiel tornava-se prospero. Hoje, o capitalismo financeiro foi elevado à categoria de divindade intocável e inatacável. 

Ai de quem ousar desobedecer aos cânones da divindade do mercado! Será sacrificado. A “liturgia” do deus mercado conta com miríades de acólitos! Contudo, Jesus é radical: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (cf. Lc 16,13). 

Os fariseus não viam nenhuma contradição entre amar Deus e amar o deus Mamom, por isso ridicularizavam Jesus. A corrupção era-lhes comezinha. Em outro contexto Jesus afirma: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua vida?” (cf. Mc 8,36). 

 
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