Quão estranho é o ser humano

Por Pe. Roberto J. Gottardo,SJ

A morte é fato inexorável, faz parte da condição humana, faz parte da nossa finitude. O Dia de Finados deve ser compreendido como relação de proximidade espiritual entre a família, o ente querido e o convite à reflexão sobre a embaraçosa questão da morte. Via de regra, assuntos relativos à morte sempre estão cobertos de penumbras, de mistérios e muitas perguntas sobre a própria vida e nenhuma resposta. A busca desenfreada nos nossos dias pela longevidade e/ou da “eterna juventude”, para além das vaidades, é uma forma de maquiar e/ou ignorar a certeza da finitude humana. “A vida não é de se brincar porque em pleno dia a gente morre” (C. Lispector).

Quão estranho e contraditório são os seres humanos! 
São intolerantes e brigam com os vivos, mas levam flores para os mortos.
Desprezam e lançam os vivos na sarjeta, mas rezam para que os mortos tenham o bom lugar.
Afastam-se das pessoas e cultivam inimizades enquanto estão vivas, mas quando elas morrem, tecem elogios e se perdem nos desvãos das lembranças de quando estavam juntas, mas não unidas.   
Ficam anos sem conversar com os vivos, mas se desculpam, fazem homenagens e constroem mausoléus quando eles morrem. 
Não têm tempo para visitar os vivos, mas não desperdiçam as oportunidades de irem aos velórios. 
Fazem críticas ferozes, falam mal e ofendem/insultam os vivos com incrível facilidade, mas quando morrem são “canonizados”.
Não ligam e não se importam com os vivos, mas se perdem nos lamentos fúnebres quando eles morrem. 
Estranhamente, os mortos parecem receber mais atenção, mais carinho e mais flores do que os vivos porque, talvez, o remorso é sempre mais forte e mais doído que a gratidão.
Em muitas circunstâncias, tem-se a impressão que o valor do ser humano está na sua morte, e não na beleza e na prodigalidade da vida.
Familiares deixam-se de se encontrar em vida, para se encontrar nos velórios. Triste. 
Este paradoxo abjeto denuncia quão problemáticas, superficiais, mesquinhas e míseras são as nossas relações com os irmãos. Parece reinar absoluta a famigerada hipocrisia farisaica. 

Neste sentido, como não lembrar da amarga e tremenda constatação do arguto iluminista francês, Voltaire, sobre os religiosos: “Eles se reúnem sem se conhecer, vivem sem amar e morrem sem se arrepender”. Pungente isso! Entretanto, salvaguardando as nuances, parece ser a regra geral nos cinzentos tempos líquidos e de alienação extrema em que estamos imersos.  

Na verdade, em muitas situações, as pessoas só sentem a falta do outro depois que o perde, só vão se lembrar dele quando estiver inerte no caixão, só vão reconhecer o seu valor quando estiver enterrada. Não por acaso o salmista sentenciou, ao intuir o limite da nossa peregrinação por este mundo de Deus: “Setenta anos é o tempo da nossa vida, oitenta anos se ela for vigorosa; e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez, pois passam depressa, e nós voamos” (cf. Sl 90,10).

É muito estranho, mas, via de regra, as pessoas são homenageadas depois que elas morrem. Por que é tão raro e difícil homenagear alguém em vida?  Tem razão o poeta: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” (Oscar Wilde). Quando é que vamos aprender que o que tivermos que fazer por alguém, devemos fazê-lo enquanto a pessoa ainda está viva? Depois que a pessoa morre, não adianta chorar no velório, fazer declarações de amor, levar flores ou ajudar a carregar o caixão. O falecido não vai resolver os nossos problemas, com o fenômeno da morte aquele/a que transvivenciou passa a viver no tempo de Deus.  

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”  (cf. Ecle 9,10). A seriedade da vida se joga na nossa contingência. Contudo, a vida é permanente processo de aprendizado: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao caminhar” (A, Machado). A vida é movimento incessante... Ai de quem perde o bonde da história!   

“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”, dizia o Pe. T. de Chardin,SJ. Por isso, não percamos o precioso tempo com sandices nem nos empanturrando com coisas efêmeras porque não são as coisas finitas que saciam a nossa ânsia pelo Infinito. Busquemos acumular tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não podem roubar. Estejamos conscientes de que cada ser humano é divino e imortal, destinado a viver a eternidade no aqui e agora. 

Concluo este arrazoado com as belas e inspiradoras palavras para meditar do Dia de Finados:  os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Viver para os outros é uma regra da natureza. A vida é boa quando estamos felizes, mas ela é muito melhor quando as outras pessoas estão felizes com a nossa existência e com a dádiva da nossa presença junto delas. É morrendo que se vive para a vida eterna. 

O Senhor nos garantiu: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim viverá, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá” (cf. Jo 11, 25-26).  À luz desta extraordinária revelação do Senhor, podemos dizer que “a morte é princípio de sabedoria para quem entendeu o seu sentido” (Frei Jacir de Freitas, OFM). 

 
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