Sobre a Quarta-Feira de Cinzas

Por Pe. Roberto J. Gottardo,SJ

A propósito do início do tempo litúrgica da Quaresma que se inicia com a celebração da Quarta-Feira de Cinzas e com o lançamento da Campanha da Fraternidade, o site BBC News Brasil publicou importante e oportuna reportagem intitulada: O que é Quarta-Feira de Cinzas? (cf. https://www.bbc.com). Este escrito é uma síntese com livres adaptações.    

A celebração da Quarta-Feira de Cinzas nasceu como uma manifestação de devoção popular entre os séculos 3º e 4º. Os cristãos, nesse dia, para se prepararem para a quaresma, impunham sobre si as cinzas como sinal de penitência pública. O rito foi oficializado na liturgia pelo Papa Gregório Magno (540-604), na virada do século 7º. 

Via de regra há duas frases bíblicas que são utilizadas cabendo ao sacerdote decidir. “Convertei-vos e crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15) é um lembrete a todos os batizados do imperativo da mudança do estilo de vida, da necessidade de abrir mão do “mundanismo” em prol de uma experiência mais intima com Deus; “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” (cf. Gn 3,19) para recordar a todos da precariedade e da brevidade desta vida, que é dom de Deus.


As cinzas carregam duas simbologias. A primeira é a ideia da efemeridade da vida, do fato de que quando Deus disse de que das cinzas viemos e às cinzas voltaremos, era para lembrar que o ser humano é pequeno diante da grandeza de Deus. A segunda nos reporta à necessidade da conversão. Segundo o Evangelho, Jesus questionou duramente algumas tradições religiosas do judaísmo, como o legalismo de alguns doutores da lei e a excessiva preocupação pela exterioridade e pelo exibicionismo religioso. 

Biblicamente, as cinzas/pó são sobejamente citadas. No livro do Gênesis há a descrição do diálogo que Deus teria tido com Adão explicando a ele como seria a vida fora do Éden: “No suor do teu rosto comerás o pão, até voltares ao solo, pois dele foste tirado. Sim, és pó e ao pó voltarás” (cf. Gn 3,19). Mais adiante, há uma passagem em que Abraão afirma: “Vou ousar falar ao meu Senhor, eu que não passo de pó e cinza” (cf. Gn 18,27). 


Jó, em atitude penitencial, confessa: “Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com os meus próprios olhos. Por isso, estou envergonhado de tudo o que disse e me arrependo, sentado aqui no chão, num monte de cinzas” (cf. Jó 42,5-6). E no segundo livro de Samuel: “Tamar tomou cinza e derramou sobre a cabeça, rasgou sua túnica de princesa, pôs as mãos na cabeça e afastou-se gritando” (cf. 2Sam 13,19-20). 

Jonas regista: “E também como sinal de arrependimento o povo se veste de cinzas, cobre a cabeça de cinzas em sinal de arrependimento e penitência... Eles proclamaram um jejum e se vestiram de sacos, desde os grandes até os pequenos. Ele se levantou do trono, tirou o manto real, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (cf. Jon 3,6-7). 

No Novo Testamento, há relatos que associam passagens de Jesus à simbologia das cinzas. Quando Jesus lamenta o comportamento dos habitantes das cidades da Galileia que não se renderam à sua palavra: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidônia, se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido, assentadas em pano de saco e cinza” (cf. Lc 10,13).  

Na carta aos Hebreus, lemos: “A cinza de novilha esparzida sobre os seres maculados os santificam, purificando-lhe os corpos” (cf. Heb 9,13). Portanto, a celebração da Quarta-Feira de Cinzas é um convite que a Igreja dirige a todos os fiéis para refletirem seriamente sobre a relatividade de tudo o que existe neste mundo. “Tudo passa, essa a minha convicção mais moderna” (C. Lispector). Nascemos com “prazo de validade” e vamos morrer. Não sabemos o dia nem a hora, mas ela é inexorável.   


Através do tempo litúrgico da Quaresma que se abre com missa da Quarta-feira de Cinzas somos chamados a entrar nesse tempo com a disposição de dedicar mais tempo para ouvir/meditar a palavra de Deus, para abrir o coração aos clamores do Espírito e a perceber a presença do Cristo no meio de nós, abraçar a proposta da Campanha da Fraternidade com bons propósitos e produzir obras de conversão. 

É importante lembrar que pela práxis oficial da Igreja as cinzas ministradas no “Rito da imposição” provém dos ramos bentos no Domingo de Ramos do ano anterior que foram conservados e queimados para se transformarem em cinza. Depois de ser devidamente abençoada na missa é espargida sobre a cabeça dos fiéis que se apresentam para serem assinalados com ela em forma de cruz. Um modo de ilustrar o ciclo da dinâmica litúrgica e da vida cristã, que é um processo que não conhece ocaso. 

 
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