Por Pe. Roberto J. Gottardo,SJ
No próximo dia 13 de junho de 2024, a Igreja de Sinop celebra os 50 anos da missa que historicamente remete à fundação da cidade. Será evento cheio de graça e feliz para toda a comunidade sinopense, especialmente para aquelas famílias/pessoas que sentem “saudade daquele tempo” e que gostam de soprar as brasas da memória. “A alma tem nostalgia das origens. Nas novidades ela se sente estranha, exilada. A alma dos poetas está cheia de objetos decrépitos. E é por isso que fazem poesia, para trazê-los de novo à vida. A poesia opera ressurreições” (R. Alves).
Neste sentido, a comunidade paroquial está empenhada em preparar uma memorável festa para comemorar este fato originário. Nenhuma festa que se preze pode ser improvisada e/ou terceirizada. A propósito, Rubem Alves, escreveu: “É preciso preparar a alma com antecedência para o evento. O tempo da comemoração se aproxima. Comemorar quer dizer trazer de novo à memória. Para quê? Para que se cumpra o ditado popular que diz ‘recordar é viver’. Dentre todos os seres vivos os seres humanos são os únicos que se alimentam do passado. Eles comem aquilo que já deixou de existir”.
Segundo Alves, “por fora, no mundo cotidiano do trabalho, estamos em busca de coisas novas. Mas a alma, nas penumbras em que mora, vive à procura de coisas velhas. Alma é saudade. Saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam”. Precisamos festejar e “recordar” os feitos do passado. O verbo recordar nos remete a "cordar", que vem do latim "cor", que significa coração. Há memórias que moram na cabeça, muito úteis, e há outras memórias que moram no coração, são parte da gente. “Aquilo que a memória ama permanece eterno” (Adélia Prado). I. “Que alegria quando me disseram: vamos à casa do Senhor” (cf. Sl 122,1). É a primeira frase do Salmo 122. Trata-se de cântico de peregrinação do povo de Israel e é atribuído ao rei Davi. Para os estudiosos o Salmo 122 é um dos mais antigos do Saltério. O povo cantava quando se dirigiam a Jerusalém, centro de adoração e onde se encontrava o templo.
Com o advento de Jesus, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” o templo de pedra deixou de ser o lugar por excelência para se adorar a Deus, como aparece em Jo 4,21-24, no diálogo de Jesus com a mulher Samaritana: “É chegada a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém... Adorarão o Pai em espírito e em verdade” (cf. Jo 4,21-24). Ou seja, o lugar da adoração é onde estivermos com um coração puro e desejoso de conversão. Efetivamente, hoje, as igrejas, se reúnem em templos para cultuar a Deus, mas o importante não é o local, mas a intenção com a qual a comunidade se reúne para celebrar os “mistérios da fé”.
Participar da Eucaristia é realmente um imenso e imerecido privilégio que devemos valorizar ao máximo, sendo ocasião imperdível para se encontrar com o Senhor da vida e com os irmãos de caminhada. O salmo 84 descreve os tabernáculos de Deus como amáveis, encontrando-se a alma do adorador envolta num desejo tão intenso de cultuar ao seu Criador que seu estado é descrito como prestes a desfalecer. O salmista classifica como “bem-aventurados” os que habitam na casa do Senhor, afirma que “um dia” nos átrios de Deus, “vale mais que mil” em qualquer outro lugar; e que prefere estar à porta da casa do seu Deus, “a permanecer nas tendas da perversidade”.

As celebrações devem ser lugar de alegria e não algo triste, sombrio, enfadonho ou melancólico. Antes devemos ser fervorosos, participativos, alegres, dinâmicos sem, contudo, nos portarmos de forma frívola, leviana, irresponsável e desrespeitosa. A nossa alegria, enquanto assembleia reunida em nome da Trindade deve ser, como descreveu belamente São Pedro: “A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (cf. 1Pe 1,8). A alegria se torna ainda mais difusa quando olhamos para um segundo aspecto da participação da família de Deus em sua casa: a comunhão fraterna. Encontrarmo-nos na casa do Senhor para, juntos, celebrarmos e compartilharmos a fé, as promessas, as conquistas da semana, as graças alcançadas e a misericórdia de Deus é fonte de regozijo, um bálsamo para a alma.

II. No próximo dia 13 de junho de 2024 vamos comemoraremos os 50 anos da celebração da Missa da fundação da cidade de Sinop. E em 2026, se Deus o permitir, celebraremos 50 anos da fundação da Paróquia Santo Antônio de Sinop. Ao olhar para o passado, ver a nossa história, sentimos profunda gratidão por todas as aventuras, vicissitudes e proezas que pontilharam os inícios da história deste próspero e pujante município do Estado de Mato Grosso.

“Que alegria quando me disseram: vamos à casa do Senhor” (cf. Sl 122,1). Esta frase tem um sentido particular e originário para a Igreja nascente de Sinop (MT). Estava estampada no frontispício da modestíssima capela dedicada a Santo Antônio erigida por estas paragens no início da colonização, em 1975. Ou seja, a Igreja de Sinop nasceu sob o signo da alegria, da participação e do encontro dos pioneiros na casa do Senhor. É importante lembrar que a imagem de Santo Antônio que se abriga na igreja Matriz da Paróquia de Santo Antônio, foi ofertada pelo insigne casal, o senhor Ênio Pipino e a senhora Nilza de Oliveira, desbravadores e pioneiros da então Gleba Celeste.

Outrossim cabe enfatizar, aqui, que em 1974, por ocasião dos preparativos da fundação oficial da cidade de Sinop, a Colonizadora abriu uma área do cruzamento das Avenidas das Sibipirunas e das Embaúbas e, precisamente, ali se erigiu a capela Santo Antônio, para a missa de fundação da cidade, que foi celebrada pelo bispo de Diamantino, Dom Henrique Froelich,SJ, alguns anos mais tarde assumiria a missão de ser o primeiro bispo da Diocese Sagrado Coração de Jesus de Sinop (cf. Prof. Luiz Erardi F. Santos. Raízes da História de Sinop, p. 170). No Lugar daquela simples capela hoje contamos com a belíssima igreja Matriz da Paróquia Santo Antônio de Sinop, cujo cinquentenário vamos celebrar em 2026, com a graça de Deus e sob os auspícios do Padroeiro.
A celebração dos 50 anos da Missa da fundação de Sinop é para nós, Jesuítas, um forte apelo para renovarmos o compromisso de servir ainda com mais denodo, empenho e dedicação o povo de Deus, com o mesmo espírito que embalava o coração do incansável servo de Deus, Santo Antônio. Celebrar 50 anos é motivo de júbilo, de regozijo no Senhor e uma grande alegria para toda a família de Deus da cidade de Sinop. Temos que agradecer, especialmente aos pioneiros de SINOP; entre eles, destacamos a singular figura do Jesuíta, Pe. João Salarini,SJ, natural do interior de Anchieta (ES), as Irmãs da Ordem do Santo Nome de Maria, o primeiro Prefeito, o senhor Osvaldo Paula e a incansável Darcília Tessaro Paula, entre tantos outros ilustres e/ou anônimos personagens que lançaram as sementes do desenvolvimento da região. A todos o nosso reconhecimento e gratidão. “A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos” (Cícero), forjadora de sonhos e condição de possibilidade para antecipar o futuro.

III. Em muitas circunstâncias a Igreja assemelha-se a uma barca açoitada por ventos contrários, pelo mar revolto e por adversidades de toda ordem. Assim também é a nossa peregrinação neste mundo: quantas decepções! Quantas provações! Quantas lutas perdidas! Tanto a história dos pioneiros como a igreja de Sinop atestam que a contradição onde se mesclam o trigo e o joio, graça e pecado, anseio por justiça e práticas iníquas se confundem. Hoje, estamos imersos na cultura do descartável, no relativismo pluralista, na abjeta mercantilização da Palavra de Deus, na indiferença em relação àqueles que padecem as diabruras da vida, na banalização da vida e no deserto das relações, etc. Contudo, nada dessas coisas “saciam e satisfazem a alma” porque nenhum bem finito pode saciar a nossa sede de infinito. Em Jesus “o infinito se fez ‘encontrável’, Nele se tornou possível para cada homem conhecer Deus e saciar sua própria sede nele" (Papa Bento XVI).
De alguma forma, somos todos mendigos de amor, de carinho, de afeto e da busca de sentido, ou seja, subsiste no coração humano profundo e misterioso desejo de acessar as origens, de autocompreender-se, de aconchegar-se à intimidade com Deus, de encontrar razões para viver. O salmista exprimiu esse anseio d’alma com as belíssimas palavras: “Uma coisa pedi ao Senhor e a procuro: que eu possa viver na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a bondade do Senhor e buscar sua orientação no seu templo” (cf. Sl 27,4). Que a “contemplação da bondade do Senhor” nos eduque para a ação libertadora do evangelho. Contemplar na perspectiva de Santo Inácio de Loyola significa cooperar com a graça de Deus, isto, "buscar e encontrar Deus em todas as coisas", e buscar “em tudo amar e servir" em vista da maior glória de Deus.
Que não esqueçamos, porém, que a casa/templo que Deus ama e o assumiu integralmente com o evento da encarnação do Verbo na história é o nosso próprio corpo. Diz-nos São Paulo: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? E que, portanto, não pertenceis a vós mesmos?” (cf. 1Cor 6,19). O verdadeiro templo de Deus, ou seja, o nosso corpo, projetado para se tornar “imagem e semelhança” do Criador, não foi feito para a prostituição, para a comercialização, para a corrupção nem para ser objeto descartável, mas foi criado para glorificar o Pai, para estabelecermos pontes de reconciliação, para construirmos comunidade de fé, de amor e de bem-querença.
À guisa de conclusão. Oxalá o templo/igreja de Sinop continue sendo um lugar de encontro fraterno de irmãos e irmãs que compartilham da mesma fé. Que seja sempre para todos aqueles/as que buscam o Senhor de coração sincero, de escuta da Palavra, de conversão e de mudança de mentalidade, um oásis no deserto; um lugar para satisfazer os desejos ínsitos d’alma, um lugar para aprendermos de Jesus a vivermos a fraternidade, um lugar para se celebrar (“fazer memória”) os mistérios da salvação. O templo é um lugar para aprendermos a expurgar todo tipo de idolatria (“deus dinheiro”) e a nos libertarmos de todos os afetos desordenados, um manancial perene de luz, de paz e fonte de inspiração.
“Vamos à casa do Senhor” para celebrar o dom da vida, para agradecer porque tudo é dom de Deus, para aprendermos do profeta de Nazaré a sermos sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14), para alimentar a vida segundo o Espírito. Contudo, sempre houve muito joio e ambiguidades no ambiente do templo. Sabemos que Jesus foi vítima da ideologia religiosa. É preciso discernimento com os vendilhões do templo (cf. Jo 2,13-25) em todos os tempos e lugares. Os mercenários, os impostores e os estelionatários da fé, em oposição ao bom pastor (cf. Jo 10,11-14) pululam e se multiplicam quais tiriricas na seara do Senhor. Os lobos travestidos de cordeiros se servem do templo, mas não servem ao templo, e tudo fazem em nome de Deus para engabelar os incautos. No universo religioso a ignorância campeia. Para muitas lideranças religiosas a religião deve estar baseada no medo e no moralismo tosco visando manter as “ovelhas” infantilizadas e dóceis. “Medo do misterioso, medo da derrota, medo da morte. O medo é o pai da crueldade, e, portanto, não é uma surpresa que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas” (B. Russel). “Orai e vigiai” (cf. Mt 26,41), advertia Jesus, porque as tentações aparecem aos borbotões. “Os homens jamais fazem o mal tão completamente e com tanta alegria como quando o fazem a partir de uma convicção religiosa” (Blaise Pascal).
“Que alegria quando me disseram: vamos à casa do Senhor”. Continuemos a participar com alegria e desassombro das atividades na Casa do Senhor! Não esqueçamos das nossas origens e dos ensinamentos dos nossos ancestrais! Não permitamos que o deserto do mundo asfixia a nossa alma e que morramos por causa de anemia espiritual. “A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... E como é difícil!” (Mario Quintana). A casa de Deus é o lugar da reconciliação, do perdão e da paz. É a nossa casa, nela se escondem tesouros inestimáveis. Sejamos zelosos e promovamos com através das palavras e do convincente testemunho cristão o espírito de comunhão. “A caridade é a alma da fé, torna-a viva; sem amor, a fé morre” (Santo Antônio). Por tudo e por todos, laudetur Iesus Cristus.





